DIA DE ÁFRICA

PRAÇA DA AMIZADE ANGOLA-CUBA

Artigo de Martinho Júnior, Luanda (reposição com actualização)

Pagina Global, 26 de  Maio 2012

1 – Em 25 de Maio comemorou-se o Dia de África e isso deveria ser motivo para que, à escala global, todas as questões relativamente ao continente-berço do homem fossem lembradas, discutidas, debatidas, pois a tarefa de lutar contra o subdesenvolvimento crónico que subsiste 50 anos depois das independências de bandeira, não pode ser apenas um objectivo africano, é-o de toda a humanidade.

Para isso, há barreiras que têm de ser banidas e obstáculos que têm de ser vencidos, por que essa longa batalha contra o subdesenvolvimento crónico, implica sabedoria e consciência em relação à situação real, sabedoria e consciência fundamentalmente suportadas pelas ciências humanísticas, como pela via das aproximações históricas e sócio-culturais.
 
A luta contra o subdesenvolvimento crónico que grassa em África, é talvez o maior desafio para a construção da paz para toda a humanidade, pelo que a sensibilidade dos outros povos fora do continente, das nações de todo o mundo e dos seus respectivos estados é não só um acto de solidariedade, mas sobretudo um acto de respeito, responsabilidade e amor pela “casa comum” que é o próprio planeta, uma prova indispensável para garantir o futuro das novas gerações.
 
2 – São sobretudo as regiões que se esvaíram oprimidas no tráfego negreiro que engrossam hoje as nações que se situam na cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, conforme se pode observar nos Relatórios do PNUD desde o início do milénio.
 
No Relatório Anual do PNUD relativo a 2011 (http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=3880&lay=pde), há dados estatístico referentes a 187 estados de todo o Mundo; dos 46 estados classificados com Índice de Desenvolvimento Baixo, o último da escala, 36 são de África, 9 pertencem à Ásia e arquipélagos do Oriente e 1 à América (o Haiti – 158º lugar da escala); 5 desses estados têm como oficial a língua portuguesa (4 em África e 1, Timor, na Oceânia, neste caso 10 anos após a independência).
 
A especulação financeira em África faz-se sentir sobretudo sobre bens essenciais para a vida, como os alimentos e as nações africanas vêem-se sem meios para fazer face às conjunturas neo liberais que abriram espaços enormes também à especulação alimentar, que agrava o estado de torpor próprio do subdesenvolvimento crónico (“Fome e especulação” –http://paginaglobal.blogspot.com/2012/03/fome-e-especulacao.html).
 
A necessidade de segurança alimentar em África assume aspectos extremos: sem alimentação adequada, as novas gerações sofrem a subnutrição e Não corresponderão perante as necessidades que se colocarão n seu futuro (“Africa Human Development Report 2012: Towards a Food Secure Future” –http://www.undp.org/content/undp/en/home/librarypage/hdr/africa-human-development-report-2012/).
 
3 – Será que isso não é motivo para que afinal devamo-nos manter preocupados sobre o que em pleno século XXI afecta as nações modernas, particularmente aquelas saídas da rota Atlântica dos escravos há largos séculos atrás?
 
O que faz com que as injustiças tivessem persistido século após século até aos nossos dias?
 
O que obsta a vencer tantas e tão atávicas barreiras e condicionamentos?
 
4 – Os povos tocados historicamente pela escravatura deverão ser os primeiros a descobrirem, descobrirem-se, redescobrindo seu passado e culturas, de forma a não só perceber muitos dos fenómenos de opressão que se reflectem até hoje, mas acima de tudo buscarem sua própria personalidade e identidade, vencendo os traumas acumulados, apesar das afrontas, dos enormes sacrifícios impostos, da miséria e da morte ao longo dos séculos.
 
É precisamente nessa conjuntura que o sentido de vida se deve assumir, sem fronteiras, solidariamente e vencendo todas as barreiras, pelo que os intercâmbios humanos devem ser incrementados, relembrando a história, aprendendo com ela, reconhecendo o que nos une em África, na América, por que a identidade sócio cultural africana se espalhou sobretudo nas duas margens do Atlântico.
 
5 – Também nesse aspecto Cuba se implica com sensibilidade e profundas convicções, dando o exemplo; a uma semana de 25 de Maio:
 
“Em Cuba Colóquio Internacional sobre África
 
O colóquio terá lugar na capital regional Pinar del Rio, localizada 165 quilómetros a oeste de Havana, com o tema África em nós, ontem, hoje e amanhã e será com a presença de especialistas cubanos e cerca de 150 estudantes de várias nações do continente.
 
Os participantes irão apresentar mais de 20 investigações, dentre estas algumas das culturas culinárias de Cuba e Angola, e objectivos comuns em sua origem e evolução.
 
A Universidade de Pinar del Rio no ocidente de Cuba, congratula-se hoje aos participantes no Colóquio Internacional sobre África que terá lugar quarta-feira e quinta-feira.
  
Este é o VI Simpósio Internacional dedicado ao amplo conhecimento do continente africano, de perspectivas políticas e ambientais.
 
Também haverá apresentações sobre as origens da África como um continente e o sentido dessa região durante o meio século de independência, em um mundo globalizado.
 
O fórum, organizado pela União de Estudantes africanos (UEA), faz parte das actividades programadas em Pinar del Rio por ocasião do 25 de Maio, Dia da África” (http://tudoparaminhacuba.wordpress.com
 
6 – A cultura da paz deve marcar os relacionamentos entre os povos e deve ser vocação intrínseca para todos os estados.
 
A paz não se poderá fazer com capitalismo neo liberal e especulação financeira, por que os alicerces humanos de existência são profundamente tocados pelos factores nocivos afectos à essência desses artificiosos fenómenos inerentes à arquitectura do poder global das aristocracias financeiras, das oligarquias e das elites.
 
É em paz que melhor nos podemos conhecer e será em paz que os povos oprimidos de todo o mundo poderão vencer as sequelas que se arrastam do passado, por que é com a paz que melhor poderão lutar contra o subdesenvolvimento crónico em que têm sido obrigados a (sub)viver e evitar as artificiosas manipulações étnicas, religiosas e sócio-políticas que quantas vezes têm sido estimuladas pelos poderosos.
 
7 – Numa hora tão difícil para África e seus descendentes espalhados pelo mundo, numa hora tão difícil para a Guiné Bissau, relembro Amílcar Cabral (http://www.didinho.org/partirdarealidadedanossater.html):
 
“Partir da realidade da nossa terra. Ser realistas.
 
Intervenção de: Amilcar Cabral
 
A REALIDADE
 
Outro problema que podemos passar a discutir é o seguinte princípio do nosso Partido: Nós avançamos para a nossa luta seguros da realidade da nossa terra (com os pés fincados na terra).
 
Quer dizer, em nosso entender não é possível fazer uma luta nas nossas condições, não é possível lutar de facto pela independência de um povo, não é possível estabelecer de facto uma luta armada como a que tivemos que estabelecer na nossa terra, sem conhecermos a sério a nossa realidade e sem partirmos a sério dessa realidade para fazer a luta.
 
Qual é a nossa realidade?
 
A nossa realidade, como todas as outras realidades, tem aspectos positivos e aspectos negativos, tem forças e tem fraquezas.
 
Qualquer que seja o lugar onde tenhamos a nossa cabeça, os nossos pés estão fincados no chão da nossa terra, na Guiné e Cabo Verde, na realidade concreta da nossa terra, que é o facto principal que pode orientar o trabalho do nosso Partido.
 
Há gente no mundo que pensa que a realidade depende da maneira como o homem a interpreta. A realidade, coisas que se vêem, que se tocam, que se sentem, o mundo que está á volta de cada ser humano, para essa gente é o resultado daquilo que o homem tem na cabeça. Há outras pessoas que pensam que a realidade existe e o homem faz parte da realidade. Não é o que ele tem na cabeça que vai determinar a realidade, mas é a própria realidade que determina o homem. O homem é parte da realidade, o homem está dentro da realidade e não é aquilo que se tem na cabeça que determina a realidade. Pelo contrário, a própria realidade em que o homem vive é que determina as coisas que o homem tem na sua cabeça.
 
Os camaradas podem perguntar: Qual é a nossa posição, do PAIGC, em relação a essas duas opiniões? A nossa opinião é a seguinte: O homem é parte da realidade, a realidade existe independentemente da vontade do homem, e o homem, na medida em que adquire consciência da realidade, na medida em que a realidade influencia a sua consciência, cria a sua consciência, ele pode adquirir a possibilidade de transformar a realidade a pouco e pouco. Esta é que é a nossa opinião, digamos, o princípio do nosso Partido, sobre as relações entre o homem e a realidade.
 
Uma coisa muito importante numa luta de libertação nacional é que aqueles que dirigem a luta nunca devem confundir aquilo que têm na cabeça com a realidade. Pelo contrário, quem dirige uma luta de libertação nacional deve ter muitas coisas na cabeça, cada dia mais, tanto a partir da própria realidade da sua terra, como da realidade doutras terras, mas ele deve medir, fazer planos, respeitando a realidade e não aquilo que tem na cabeça. Isso é muito importante, e o facto de não o respeitar tem criado muitos problemas na luta de libertação dos povos, principalmente em África.
 
Eu posso ter a minha opinião sobre vários assuntos, sobre a forma de organizar a luta, de organizar um Partido, opinião que aprendi, por exemplo, na Europa, na Ásia, até mesmo talvez noutros países de África, nos livros, em documentos que li, com alguém que me influenciou. Mas não posso pretender organizar um Partido, organizar uma luta de acordo com aquilo que tenho na cabeça. Tem que ser de acordo com a realidade concreta da terra”…
 
PAZ SIM, NATO NÃO!
 
CUBA PARA A CPLP!
 
Foto: Uma praça em Luanda que é também um testemunho duma identidade trans-Atlântica: a todos os povos importa avaliar a realidade para ser possível construir a paz, com ética, equilíbrio, justiça social, cidadania, participação, amor e aprofundamento da democracia, nesta minúscula “casa comum” que é a Terra.
 
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