O ÚLTIMO 11 DE SETEMBRO (II)

 

Luanda, Martinho Junior

5 – Para “salvar os reis” os Estados Unidos estão reféns dum “desencontro”: foram eles que estimularam as ondas de tensão e provocação contra os governos instalados (seus ex-aliados na Tunísia, na Líbia e no Egipto), dando sequência às “revoluções coloridas” e têm eles mesmo propiciado a fundamentalistas radicais originalmente financiados a partir da Arábia Saudita e Qatar, alguns deles tendo feito parte da Al Qaeda, todo o tipo de apoio, instigando-os até a ter um papel fundamental nas “primaveras árabes”, em particular na Líbia e agora também na Síria.

 

“ambiguidade” dos Estados Unidos em relação à Al Qaeda só o é para aqueles que não valorizam os relacionamentos históricos dos norte americanos com as monarquias arábicas, em função das quais está a Al Qaeda associada.

 

Essa ligação, apoio e manipulação foi impulsionada em primeira mão pela Administração Republicana de Ronald Reagan que estimulou os “freedom fighters” simultaneamente na Nicarágua, em Angola (UNITA sob as ordens de Savimbi) e no Afeganistão.

 

A CIA encarregar-se-ia das ligações, das orientações e do apoio, pelo que no Afeganistão Bin Laden e a Al Qaeda tiveram um papel importante contra o regime implantado em Cabul com o apoio dos soviéticos, no seu derrube e na retirada militar soviética.

 

A Al Qaeda só teve fluidez histórica em função de sua instrumentalização pela CIA, não sendo de admirar os interesses comuns, por exemplo, entre as famílias Bush e Bin Laden no Carlyle Group, facto a que por diversas vezes me tenho reportado. (“O Carlyle Group, integrado pelas famílias Bush e Bin Laden, foi premiado com um contrato de mil milhões de dólares para reconstruir o Iraque” –http://resistir.info/eua/carlyle_group.html).

 

6 – Muito embora o derramamento de sangue fosse limitado na Tunísia como no Egipto, na Líbia e na Síria o empenho de grupos que alguma vez estiveram integrados na Al Qaeda está no eixo das acções armadas, acções catapultadas pelos Estados Unidos e pela NATO!

 

O plano operacional “rebelde” na Síria é uma grosseira adaptação aliás do plano levado a cabo na Líbia, com um senão: na Síria, por oposição da Rússia e da China no Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram a intervenção directa da NATO. (“A guerra dos EUA NATO contra a Síria: forças navais do ocidente frente às da Rússia ao largo da Síria” –http://resistir.info/chossudovsky/siria_26jul12.html).

 

Por esse motivo estão a utilizar a Turquia, membro da NATO, como retaguarda próxima dos rebeldes (fronteira norte da Síria), o que se tornou cada vez mais evidente, à medida que a confrontação se incrementava em Alepo. (“A sangrenta estrada para Damasco: a guerra da tripla aliança contra um estado soberano” – http://www.voltairenet.org/A-sangrenta-estrada-para-Damasco-A).

 

Dessa análise da autoria de James Petras, saliento:

“Segundo o Departamento de Estado, a estrada para Teerão passa através de Damasco: o objectivo estratégico da NATO é destruir o principal aliado do Irão no Médio Oriente; para as monarquias absolutistas do Golfo o objectivo é substituir uma republica laica por uma ditadura vassalo teocrática; para o governo turco o objectivo é promover um regime cordato aos ditames da versão de Ancara do capitalismo islâmico; para a Al Qaeda e os seus aliados fundamentalistas Salafi e Wahabi, um regime teocrático sunita, limpo de sírios laicos, alevis e cristãos servirá como trampolim para projectar poder no mundo islâmico; e para Israel uma Síria divida ensopada em sangue assegurará a sua hegemonia regional.

Não foi sem uma antevisão profética que o senador estado-unidense Joseph Lieberman, um uber-sionista, dias após o ataque da Al Qaeda de 11 de Setembro de 2001, pediu: Primeiro devemos atacar o Irão, Iraque e Síria antes mesmo de considerar os autores reais do feito.

As forças anti-sírias armadas reflectem uma variedade de perspectivas políticas conflitantes unidas apenas pelo seu ódio comum ao regime nacionalista independente e leito que tem governado a complexa e multi-étnica sociedade síria desde há décadas.

A guerra contra a Síria é a plataforma de lançamento de uma nova ressurgência do militarismo ocidental a estender-se desde a África do Norte até o Golfo Pérsico, sustentado por uma campanha de propaganda sistemática que proclama a missão democrática, humanitária e civilizadora da NATO em prol do povo sírio”

 

7 – Como estão a ser “transferidos” os grupos ligados à Al Qaeda para a Síria?

Em “EEUU pacta con Al Qaeda” (http://www.voltairenet.org/EEUU-pacta-con-Al-Qaeda-5-000), há uma síntese que responde à pergunta:

“Se informa que Tariq al-Fadhli, un entrenado militante yihadista que luchó junto a Osama Bin Laden, ya acordó con funcionarios de EE.UU. y Arabia Saudita a través de Turquía el envío desde las ciudades sureñas yemeníes Zinjibar y Jaar de 5.000 militantes al territorio sirio para ayudar a los rebeldes a luchar en la guerra para acabar con el régimen de Al Assad. El hecho, subrayan los medios, explica el repentino retiro de los hombres armados de la región yemení de Abyan.

Se informa que los militantes, que se refieren a sí mismos como defensores de la Sharia, se unirán con otros grupos de combatientes de Al Qaeda que se han ido infiltrando en Siria desde Libia, Irak y Turquía, con la ayuda de la OTAN y los estados del Golfo.

Al-Fadhli es descrito por la agencia AlAlam como uno de los ancianos de la tribu de Abyan y ex líder de Al Qaeda. Yemen, por su parte, denunció a Al-Fadhli como uno de los terroristas más peligrosos del país, según el diario estadounidense The New York Times”.

 

8 – A Líbia é outro dos países que responde aos “rebeldes” na Síria com os seus próprios “rebeldes”, alguns deles terroristas que estiveram (ou estão) ligados ao Al Qaeda (“Libyan terrorists are inveding Syria” – http://landdestroyer.blogspot.pt/2012/08/libyan-terrorists-are-invading-syria.html):

 

“Reuters reported, that Mahdi al-Harati, a powerful militia chief from Libya’s western mountains, who is actually a militant of the US, British, and UN listed terrorist organization Libyan Islamic Fighting Group (LIFG), now leads a unit in Syria, made up mainly of Syrians but also including some foreign fighters, including 20 senior members of his own Libyan rebel unit.

 

Reuters would go on to explain, the Libyans aiding the Syrian rebels include specialists in communications, logistics, humanitarian issues and heavy weapons, and that they operate training bases, teaching fitness and battlefield tactics.


Reuters concedes that the ongoing battle has nothing to do with democracy, but instead is purely a sectarian campaign aimed at pushing out Syria’s minorities, perceived to be oppressing Sunni Muslims”

 

 

9 – O comportamento histórico dos Estados Unidos para com a Fraternidade Muçulmana é outro ponto de interesse para a presente abordagem.

 

Em “Washington e a Fraternidade Muçulmana” (http://pagina–um.blogspot.com/2011/02/washington-e-fraternidade-muculmana.html) o autor interroga-se sobre a ambiguidade:

 

… “Tudo isso aponta para a principal diferença entre antes e agora. Há meio século, o ocidente optou por servir-se da Fraternidade com vistas a algum ganho tático de curto prazo, e mais tarde apoiou muitos dos governos autoritários que tentavam varrer o grupo para sempre. Agora, com esses governos por um fio, o ocidente ficou praticamente sem escolha; depois de décadas de opressão, é a Fraternidade Muçulmana, com sua estranha combinação de fundamentalismo antiquado e métodos modernos de fazer política social que aí está, sobrevivente, no centro da disputa”.

A ascensão da Fraternidade Muçulmana no Egipto à medida que se esfumava o regime de Mubarak, foi realizada com um crescendo de intensidade, com um apelo intensivo à emoção e à provocação, espelhadas em múltiplas manifestações como as que foram ocorrendo na Praça Tahir, num processo que não chegou à confrontação militar como na Líbia e agora na Síria, mas seguiu etapas semelhantes na fase de eclosão da rebelião.

 

10 – Para salvar o(s) rei(s), com todos os sentidos postos no petróleo arábico (e agora também no líbio), os Estados Unidos não estão apenas a defender regimes retrógrados a coberto de monarquias “pétreas”: estão a promover a contra revolução dando espaço a fundamentalismos tão radicais que se podem a espaços voltar inclusive contra si.

O último episódio neste 11 de Setembro de 2012 inscreve-se nesse contencioso tenebroso cujas consequências podem resvalar até para um holocausto nuclear!

Essa promoção não está apenas a ser dirigida para o interior do continente euro-asiático, afectando inclusive a Ásia Central, a Rússia e a China.

Ela está também a ser dirigida para dentro do continente africano, por exemplo por via da expansão do AQMI que, ao proliferar pelo Magreb e imensa região da CEDEAO, faz aumentar os factores de risco em direcção a outras regiões de África, África Austral incluída.

Na América Latina, a tipologia dos golpes levados a cabo nas Honduras e no Paraguai responde ao carácter fascista do próprio império, manifesto em todas as regiões do globo por via da hegemonia unipolar sem escrúpulos, sem ética e usando as oligarquias afins.

No caso de Angola adianto uma pergunta: até que ponto migrações sobretudo provenientes de países CEDEAO não poderão integrar nexos de desestabilização que contrariem as políticas de paz que o país tão legitimamente está a cultivar?

Sendo Angola um “escândalo geológico”, não me admiraria que tal como se estão a repescar os “freedom fighters” que deram em Al Qaeda, se repescassem ainda os “freedom fighters” locais para a “primavera” do costume!

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