As novas tendências do Carnaval angolano.

A história dos povos tem demonstrado que os modelos comunicacionais, da esfera tradicional da cultura, nem sempre estão em oposição com a modernidade, existindo uma complementaridade geracional ao longo do tempo.

A modernidade, enquanto estádio adulto da tradição, ergue-se num processo de ruptura parcial com a tradição, conservando os “policódigos” e as linhas de força representativas dos valores do passado.
O conjunto dos valores identitários do Carnaval angolano, representados pela tradição, em grupos como “União Operário Kabocomeu”, com a sua singular e expressiva kazukuta, o “União Mundo da Ilha”, “O União 54”, com a sonoridade das expressivas banheiras, e o “União Kiela”, com a vibração  do semba, constituem, pela exaltação dos valores da tradição, a identidade do Carnaval tradicional angolano nos tempos modernos, facto que urge preservar.
Os “Unidos do Caxinde”, com a sua forma sumptuosa de exibição, representaram o paradigma da modernidade, reorientando os critérios clássicos de avaliação – dança, canção, corte, painel, comandante, alegoria, e falange de apoio – baseados num regulamento que, estruturalmente, remonta os primórdios do Carnaval da Victória que, reclama, pela exigência dos novos tempos, uma profunda revisão.
Se os aspectos artísticos da tradição, sobretudo a estrutura rítmica da canção, dança, corte, alegoria e adereços, constituírem a base dos critérios de avaliação, estamos longe de considerar os “Unidos do Caxinde”, um modelo da tradição. Contudo, se, inversamente, a avaliação do júri exaltar a mudança, a permeabilidade ao novo, incluindo a absorção dos ventos de outras paragens, os “Unidos do Caxinde” foram, inequivocamente, o modelo da modernidade.
A organização interna e formas de financiamento dos grupos de Carnaval, engajando, para o efeito, os grandes grupos empresariaisde forma directa, pode vir a ser um antídoto contra as assimetrias materiais entre os grupos, nivelando as formas de apresentação e prestação artística.

Plano

Julgamos urgente criar um “Plano nacional de reorganização do Carnaval” que visa imprimir mudanças estruturais na forma de organização do Carnaval Nacional, num processo que engajaria os Governos provinciais, representantes dos Grupos de Carnaval,Blocos de Animação, APROCAL, Associação Provincial do Carnaval de Luanda, Comissão Nacional Preparatória do Carnaval, Direcções Provinciais da Cultura, Associações Culturais e todos os intervenientes na realização do Carnaval, incluindo convidados e demais interessados.
O referido plano teria os seguintes objectivos: melhorar o estado actual de realização do carnaval, reorganizar a estrutura interna dos grupos, rentabilizar a sede dos grupos, transformar os grupos em associações, realizar eleições e potenciar o estatuto da Aprocal, criar associações do carnaval nas Províncias, documentar, em vídeo, ou em outros suportes de registo, a história do Carnaval, criar estratégias de transformar o Carnaval em produto turístico, e definir o número de foliões dos Grupos de Carnaval, no grande desfile central. Não sendo conclusivo, o “Plano Nacional de Reorganização do Carnaval”, visa instaurar um debate alargado com os principais intervenientes na realização do Carnaval angolano, procurando consensos para uma festa que se pretende mais organizada e participativa.
Entendemos que o Carnaval deve ser preparado ao longo do ano, pelo que deve-se criar um calendário de reuniões de auscultação com os grupos, para que as necessidades dos grupos sejam geridas e atendidas, atempadamente, de maneira racional e adequada.

Blocos

O surgimento mediático dos Blocos de Animação, trouxe consigo, uma participação eufórica da juventude, que introduziu uma nova linguagem e forma de exibição no Carnaval actual.
Os Blocos são a parte visível de um novo traço cultural, que tem contribuído para a redefinição do Carnaval, e podem evoluir para verdadeiros Grupos de carnaval, o que, de certo modo, poderá reduzir o peso da participação do estado. Os Blocos de Animação caminham, cada vez mais, para uma auto sustentação, e muitos deles são provenientes de agremiações culturais e grupos empresariais, com estatutos e funcionalidade própria. Daí que esteja em aberto a criação de uma Classe D, constituída pelos Blocos de Animação que poderão passar, depois de uma discussão alargada e séria, à competição geral.

Prémio

O “Prémio BAI-canção do Carnaval” revelou-se um importante contributo à modernização do carnaval. O prémio visa, dentre outros objectivos, envolver os cantores e compositores angolanos na valorização e melhoria das canções do Carnaval, elevar à categoria artística um segmento da música angolana pouco reconhecido, mas que é detentor de inquestionável qualidade e tradição, contribuir para a consciencialização e respeito dos valores musicais da sociedade angolana veiculados pelas canções do carnaval e, por fim, lê-se no regulamento, motivar os músicos e compositores, em geral, e, particularmente, os que estão ligados aos grupos de Carnaval, a desenvolver e aprofundar as suas aptidões musicais dentro de um espírito de competição saudável.

Kuduro

Enveredar pela modernidade na tradição, conservando os traços culturais de identidade colectiva, deve ser o princípio de adaptação do Carnaval aos novos tempos. Tal como o semba, a varina, a tchianda e a kazucuta, danças de proveniência popular, emigraram para o carnaval, o kuduro, enquanto género musical e dança de expressão internacional, deve figurar, naturalmente, na contemporaneidade do carnaval com a criação de um grupo potente que venha a promover esta expressão artística.
A dança, um dos suportes emblemáticos do Kuduro, possui uma plasticidade coreográfica reconhecidamente angolana, que sobrevaloriza o ritmo e a palavra inusitada, características de fácil introdução no ritmo do Carnaval.
As ocorrências do quotidiano dos bairros, a crítica social e política, os comportamentos, os defeitos do adversário, o enaltecimento de virtudes, a auto-promoção, são os temas e estratégias recorrentes de composição temática dos textos do Kuduro, que, resguardando o conteúdo moral dos textos, devem evitar no Carnaval o uso irreverente da palavra obscena ou “obscenizada”.

Adereços

As estratégias de restauro dos adereços, para melhorar a forma de apresentação dos Grupos, passa pelo engajamento de profissionais dos vários domínios da arte e dos ofícios que intervêm no processo de criação da estética do Carnaval: artistas plásticos, Carpinteiros, funileiros e empresas em condições de fornecer materiais passíveis de ser introduzidos no Carnaval.
Neste sentido a alegoria, um dos principais adereços do carnaval que acaba por determinar o rosto dos grupos, deveriam ser elaborado por profissionais qualificados, com apoio financeiro directo dos patrocinadores.

Ordem

Os grupos União Recreativo Kilamba da Classe A, União Angola Independente da Classe B e Cassules Kazukuta do Sambizanga da Classe C, Infantil, abrem a edição 2017 do desfile central do Carnaval de Luanda, segundo resultado do sorteio realizado no dia 13 de Outubro de 2016, na ex-Liga Africana, pela Comissão Provincial do Carnaval de Luanda.
Segundo o referido sorteio a ordem do desfile ficou assim ordenada: Classe Infantil, Cassules Kazukuta do Sambizanga, Cassules Geração Sagrada, Cassules Juventude do Kilamba Kiaxi, Cassules Fogo Negro, Cassules Hoje Ya Henda, Cassules Mundo da Ilha, Cassules Twa fundumuka, Cassules Amazonas do Prenda, Cassules Sagrada Esperança, Cassules 10 de Dezembro, Cassules Petrolíferos, Cassules Viveiros do Nzinga Mbandi, Cassules do 54, Cassules Jovens da Cacimba, e Cassules Café de Angola.
A Classe B de adultos está assim ordenada, União Angola Independente, União Domant, União Jovens Mukwaxi, União Dimba Dya Ngola, União Giza, União Unidos do Zango, União Café de Angola, União Imbondeiro do Cazenga, Unidos do Kilamba Kiaxi, União Kwanza, União Twa fundumuka, União Geração Sagrada, União Juventude do Kapalanga, União Geração do Mar, e União Amazonas do Prenda.
Por último, o desfile da Classe A, a decorrer no dia 28 de Fevereiro, na Marginal da Praia do Bispo, terá seguinte sequência: União Recreativo Kilamba, União Kazukuta do Sambizanga, União Sagrada Esperança, União Kiela, União Povo da Samba, União 10 de Dezembro, União 54, União Mundo da Ilha, União Kabocomeu, União Jovens da Cacimba, União Etu Mudietu, União Nzinga Mbandi, União 17 de Setembro, e União Tuabixila.

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