MATURAÇÃO DA AMIZADE AFRO-CUBANA.

Por Martinho Júnior.

 “Ser internacionalista es saldar nuestra propia deuda con la humanidad. Quien no sea capaz de luchar por otros, no será nunca suficientemente capaz de luchar por sí mismo.”

Fidel Castro, discurso en el acto por el 32º Aniversario del
Desembarco del “Granma”, el 5 de diciembre de 1988.

1- No momento em que se vão apagando fisicamente do mundo dos vivos, os Comandantes da Revolução Cubana, há muitos dos seus companheiros que continuam a dar visibilidade à luta de décadas que advém sobretudo desde os tempos da guerrilha na Sierra Maestra e cujas águas caudalosas decorrem como um poderoso rio até aos dias de hoje, através de imensas iniciativas vocacionadas na direcção do homem e do planeta, que têm tudo a ver com a lógica com sentido de vida que está a ser transmitida por via do socialismo ao povo cubano e a todos os povos carentes de vencer o subdesenvolvimento crónico de séculos, a que têm sido votados, em especial nas duas margens do Atlântico sul!

As pontes comuns entre a América e África encarregaram-se os europeus de começar a lançar nos seus caboucos, por via do “comércio triangular” que envolvia o tráfico negreiro, determinando-se numa conjuntura que exauriu da forma mais perversa, o tecido humano autóctone dos dois continentes.

Enquanto os autóctones da América eram dizimados pela guerra ou pela doença, a África, em contínuas operações de rapina, iam buscar a mão-de-obra escrava que careciam para as suas plantações, muito antes do surgir das máquinas da Revolução Industrial.

Todos os processos de luta contra o colonialismo, o “apartheid”, o neocolonialismo e o imperialismo, lutas pela independência, pela soberania, pela efectiva democracia, pela dignidade das nações, dos estados e dos povos, pelos equilíbrios humanos que há a construir, pelo respeito para com a Mãe Terra, resultaram e resultam em grande parte desse choque primeiro que ocorreu na metade ocidental do planeta e afinal correspondia aos primeiros passos duma globalização que se tem vindo a acelerar com os parâmetros das Revoluções Industrial e mais recentemente com o aditivo das Novas Tecnologias.

2- Dos dois lados do Atlântico sul, na América e em África, há imensas marcas dessa trajectória antropológica, histórica e social, com a Revolução Cubana a manter a vitalidade rejuvenescida não só pela dignidade, mas também pela solidariedade, pelo internacionalismo, pela clarividência de seus dirigentes e povo, pelo redescobrir constante, desde as origens, dos vínculos que nos conduzem à actual emergência de povos nos dois continentes, que afinal tanto têm em comum!

No assinalar da primeira visita do Comandante Fidel a Angola, a 23 de Março de 1977, no acto que se realizou no Centro de Imprensa Aníbal de Melo, espelhou-se um pouco dessa vitalidade comum transatlântica, exprimida por antigos guerrilheiros angolanos e cubanos, na presença de muitos representantes do corpo diplomático sedeado em Luanda, de dirigentes e altos dignitários angolanos, cubanos e de outros países, de convidados, de jovens, de jornalistas…

De entre a memória colectiva, intercalada com imagens dessa visita e o momento cultural realizado por alunos da Escola Comandante Fidel em Luanda (recordando sobretudo alguns poemas de Nicollas Guillén), ressalto a memória do General Moracén Limonta, companheiro dos Comandantes da Revolução Cubana nos tempos da Sierra Maestra e um dos homens da IIª coluna do Che colocados à disposição do MPLA desde quando foi instrutor, num processo que estimulou a formação e a deslocação dos três esquadrões que a partir do exterior procuraram socorrer a Iª Região Político Militar do MPLA, cercada pelo colonialismo português e pelo etno-nacionalismo interpretado pela FNLA, no âmbito da orientação neocolonial que tomou o Zaíre com o regime de Mobutu.

3- Muito recentemente, numa Mesa Redonda realizada em Havana, outro guerrilheiro, Victor Dreke, que participou na Iª coluna do Che no Congo e depois contribuiu na ajuda cubana ao PAIGC (na luta pela independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), falou um pouco da saga africana do Che, que deu oportunidade ao reforço do Movimento de Libertação em África, uma saga que não foi “a história dum fracasso”.

Digamos que o Comandante Che Guevara havia apenas assumido a primeira e a mais dolorosa experiência, a experiência de vanguarda da iniciativa cubana no enlace com África a sul do Equador e o Comandante Fidel não só deu-lhe continuidade, mas também engrossou o caudal internacionalista, sempre onde e quando foi necessário esse caudal engrossar, pelo que combatentes como Victor Dreke ou Moracén Limonta são disso alguns dos maiores testemunhos.

 

Sobre a vanguarda do Che, Victor Dreke referiu (Mesa Redonda de 1 de Julho de 2016 – “Víctor Dreke siempre al lado de las mejores causas de Cuba”):

  “De África no sabíamos mucho. Los libros sobre ese continente quienes los escribían eran los capitalistas, y daban la impresión de que ellos eran unos salvajes. Por eso fue muy reveladora esa vivencia”.

 Entre las anécdotas que compartió, estuvo que ninguno de los cubanos allí en el Congo identificó al Che. “Y cuando se supo, muchos quedaron realmente impresionados con esa certeza.

 “Benigno dijo muchas cosas, porque él coge noticias de cosas que pasaron en el Congo, a partir de lo que el Che explicaba de los errores que cometimos. Pero él nunca estuvo allí. Además, es mentira que el Che no estuvo en algún momento junto a la tropa, de hecho, cuando él lo refiere, el Che estaba enfermo gravemente de paludismo y con asma. Creíamos que moría y aún así dijo que no salía. Yo tenía una situación compleja porque no lo podía dejar morir. La decisión fue tratar de curarlo. Pero el Che hasta perdió el sentido. Si el Che viviera hoy, las interpretaciones sobre esa experiencia serían diferentes.

 “Han pasado los años, y yo creo que esa fue la historia de una experiencia y no de un fracaso, porque nosotros no conocíamos África, y eso no quiere decir que engañaron al Che. Qué se dio allí, que cuando se hizo la exploración se vio a un grupo de armas, y vestidos, todos los negros son bastante parecidos, y los vieron armados. Nosotros logramos con las acciones ver lo que realmente tenían. Esa fue una experiencia de cosas que no conocíamos. Pero el Che a lo negro le decía negro, no andaba con medias tintas. Tenía la moral de lucha que cuando se equivocaba, decía que se equivocaba y si tú tenías la razón lo admitía, pero no te andaba pasando la mano por la cabeza.

 “Además, dentro de ellos mismos –los congoleses- salen muchos que traicionan. Ellos no se acabaron de unir. Pero el Che era el jefe de los cubanos, y llegó un momento en el que estaba prácticamente aislado. Nos pidió seleccionar 15 hombres, pero no se quiso ir. Queríamos que saliera porque el Movimiento de Liberación había planteado el fin de la guerra y dijeron que iban a resolver sus problemas sin el apoyo de ninguna otra fuerza. Pero los cubanos salimos en zafarrancho de combate, y los belgas se quedaron allí”

4- De facto, os afrodescendentes cubanos, tal como todos os outros combatentes revolucionários de Cuba, tiveram que fazer um grande esforço até definir a geoestratégia aferida à luta contra o colonialismo e o “apartheid”, numa constante aprendizagem que desde aí nunca terminou, até por que em África, onde as questões culturais são como um livro aberto, há dificuldades em acelerar até os ritmos de vida e passar da contemplação quase vegetal “a dois tempos”, ao sabor das duas estações tropicais que conformaram os processos produtivos das sociedades camponesas tradicionais, para a velocidade a que obriga a luta contra o subdesenvolvimento que não pode ser reduzida aos ambientes urbanos.

 Na Angola contemporânea por exemplo, tudo isso está hoje patente e os impactos do capitalismo neoliberal, primeiro com o choque, depois com a terapia, implementam outro patamar de contradições que poderá beliscar ou pôr mesmo em risco a paz alcançada em 2002: a tentação da formação duma oligarquia formatada a “100 novos-ricos” (processo que tem tudo a ver com a globalização tutelada pela hegemonia unipolar), que se distancie do resto da multifacetada sociedade angolana e introduza a via neocolonial, ou a audácia de lutar contra o subdesenvolvimento de forma a poder gerar uma classe média ampla, aglutinadora e equilibradora, em função do esforço nacional (processo que se aproxima dos parâmetros da emergência multipolar).

 Os companheiros dos Comandantes revolucionários de Cuba, são eles mesmos revolucionários constantemente incomodados, até por que integram os procedimentos socialistas de sua pátria que têm de continuar a ser defendidos perante um império que continua com a posse de Guantánamo e com o bloqueio e por que hoje como poucos conhecem o estado do mundo e também não lhes escapa a encruzilhada em que se encontra África e por tabela Angola.

 A acomodação neocolonial em África é hoje patente em vastas regiões, como por exemplo na África do Oeste, no Sahel… e reflecte-se no contexto da União Africana, que está a demonstrar cada vez mais vocação para a pompa e circunstância do que para enfrentar os enormes desafios da luta contra o subdesenvolvimento, a partir duma economia marcada pela ultraperiferia dos sistemas globais (basta verificar os relatórios anuais da ONU sobre os Índices de Desenvolvimento Humano).

 A acomodação concentra em poucas mãos os negócios da economia de mercado em aberto, copiando o facto do imperialismo ter assumido, em função do seu próprio carácter hegemónico unipolar, a formação da aristocracia financeira mundial, de carteis e de poderosos conglomerados de multinacionais, que tendem a eliminar qualquer hipótese de concorrência, mas só se podem continuar a impor por via duma contínua opressão, agora mais difícil de detectar em função dos parâmetros aferidos e propiciados pela nova Revolução Tecnológica.

 Remetida a fornecedora tradicional de matérias-primas, a economia ultraperiférica de África é constante vítima das políticas de preços impostos pelo poder da hegemonia unipolar, sobre as mesmas matérias-primas e, por isso, o continente tem sido mantido em estado de letargia e subdesenvolvimento… e isso acomoda alguns, esbate-se na pobreza da maioria e está a incomodar muito poucos!…

5- Há pouco tempo fiz sentir que África não está desperta em relação ao CARICOM, uma organização que substancialmente representa os arquipélagos que se tornaram “depósitos” dos herdeiros dos antigos escravos, que ousam hoje considerar em uníssono a necessidade das nações forjadas a partir dos antigos potentados coloniais compensarem os efeitos do seu isolamento gerado a partir dos processos inerentes à escravatura de então.

É evidente que não é por acaso que África também não despertou suficientemente para fazer face aos processos correntes que envolvem a determinação imposta pela hegemonia unipolar, que implica na estagnação ultraperiférica africana e numa dívida que jamais poderá ser paga e poderá estar até constantemente a agravar-se.

Essa situação agravou-se mesmo em época de capitalismo neoliberal, propícia ao caos, ao terrorismo e ao neocolonialismo que procura remeter África aos tempos da opressão, sem remissão.

Nesse aspecto recorde-se Thomas Sankara, que pagou com sua vida a lucidez incómoda que lhe ia na alma, ao equacionar de forma clarividente o problema quando o neocolonialismo via “FrançAfrique” ditava as regras até da moeda comum africana na África do Oeste e no Sahel, numa época em que se estava longe do despontar da emergência multipolar que haveria de colocar os relacionamentos internacionais no patamar duma outra equação:

 …”No se trata por lo tanto de una provocación. Yo querría que con sensatez nos propusieran soluciones. Querría que nuestra conferencia adoptara la necesidad de decir con claridad que no podemos pagar la deuda. No con un espíritu belicoso, belicista. Esto es para evitar que nos hagamos asesinar aisladamente. Si Burkina Faso, solo, se negara a pagar la deuda, ¡yo no estaré presente en la próxima conferencia! En cambio, con el apoyo de todos, que mucho necesito, [Aplausos] con el apoyo de todos podríamos evitar pagar. Y evitando el pago podríamos dedicar nuestros magros recursos a nuestro desarrollo.

 Querría terminar diciendo que podemos tranquilizar a los países, a los que decimos que no vamos a pagar la deuda, advirtiéndoles que lo que ahorremos no se irá en gastos de prestigio. No queremos más de eso. Lo que se ahorre irá al desarrollo. En particular, evitaremos endeudarnos para armarnos, porque un país africano que compre armas no puede hacerlo más que contra otro país africano. ¿Qué país africano puede armarse para protegerse de la bomba nuclear? Ningún país es capaz de hacerlo. Desde los más equipados a los menos equipados. Cada vez que un país africano compra un arma, es contra un africano. No contra un europeo. No contra un país asiático. En consecuencia, en el impulso de la resolución sobre la cuestión de la deuda debemos también encontrar una solución al problema del armamento.

 Yo soy militar y llevo un arma. Pero, señor presidente, querría que nos desarmemos. Porque yo llevo el único arma que poseo. Otros han ocultado las armas que tienen. [Risas y aplausos] Entonces, queridos hermanos, con el apoyo de todos, podremos hacer la paz entre nosotros.

 Igualmente podremos utilizar las inmensas potencialidades de África para desarrollarla, porque nuestro suelo y nuestro subsuelo son ricos. Tenemos lo suficiente y tenemos un mercado inmenso, muy vasto, de norte a sur, de este a oeste. Tenemos la suficiente capacidad intelectual para crear o al menos tomar la ciencia y la tecnología allí donde podamos encontrarlas”

6- No preciso momento em que em Angola se realiza a síntese que dá oportunidade à paz e ao renascimento africano, há a oportunidade para se travar a luta contra o subdesenvolvimento há tanto tempo esperada, há a emergência unipolar que permite encontrar soluções “ganha-ganha” ali onde antes só os prejuízos recaíam sobre África, há todo um manancial de reflexão e sabedoria que se desprende dos processos dialéticos que se sucederam desde o final da IIª Guerra Mundial e num mundo cada vez mais globalizado, há ainda as experiências traumáticas últimas, resultantes do capitalismo neoliberal que a todo o custo tenta dar corpo a uma hegemonia unipolar imposta por uma aristocracia financeira viciada em processos históricos que sempre lhe correram de feição, à custa de milhões e milhões de vítimas… e há a espectativa da ruptura da actual administração republicana de Donald Trump, em relação ao inferno em que a humanidade e o planeta se encontram, na combustão assimétrica duma IIIª Guerra Mundial!…

 

O estado do mundo não é motivo para que as elites africanas se acomodem, por que provavelmente nunca antes as opções viradas para a paz e para o renascimento africano tiveram ventos tão favoráveis!

 Entre as opções, a maturação da amizade afro-cubana aponta-nos uma direcção clarividente de como trabalhar o homem e com o homem com vista a antropológica e historicamente, em comum, se realizarem os imensos resgates que há a realizar e responder aos imensos desafios que há a que enfrentar!

É por isso que em Angola, há a oportunidade para se reequacionar tudo o que diz respeito à educação, à saúde e a uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, por que a implementação dos valores patrióticos indispensáveis aos avanços urgentes na equação da identidade nacional, ela mesma também em emergência, ocupam um espaço essencial no rumo que deve nortear a Angola, (a cada um dos países africanos) e isso não é motivo para nos acomodarmos, antes pelo contrário: sintamo-nos todos incomodados, por que só assim se vão superar os resgates e desafios que se nos deparam, algo que Cuba tem providenciado enquanto exemplo que os africanos não podem desaproveitar: a incontornável irmandade progressista transatlântica!

Não se podem assim deixar de colocar sobre a mesa, as heranças retrógradas que ainda tolhem a vontade de superação, entre elas a questão das compensações devidas quer ao isolamento em que se encontram tantas e tantas comunidades, quer ao estágio de desenvolvimento das forças produtivas em ambos os lados do Atlântico sul, por que neste momento já não está tanto em balanço quem deve a quem, mas percebe-se mais que nunca (basta comparar os termos da globalização hegemónica unipolar e os termos da globalização de emergentes em multipolarização), quem efectivamente deve, o que deve, como deve e por que deve!

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