Ácido fólico reduz risco do doenças mentais.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores norte-americanos e publicado na revista Jama, da Associação Médica norte-americana, constatou que a exposição pré-natal à vitamina B9, mais conhecida como ácido fólico, em alimentos fortificados, pode reduzir o risco de doenças mentais.

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Mais de 80 países do Mundo têm leis que determinam a adição da vitamina B9 a grãos e farinhas, porque é conhecida a importância que ela tem para o desenvolvimento do tubo neural, a estrutura do embrião que dá origem ao cérebro e à medula espinhal.
O estudo inclui dados de três pesquisas, que trazem, no total, registos médicos de 1.400 pessoas. A primeira delas foi conduzida no Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos (EUA), com informações de 292 crianças e jovens dos 8 aos 18 anos, nascidos entre 1993 e 2001 e divididos pelos cientistas em três grupos: não expostos à fortificação pré-natal com ácido fólico; expostos parcialmente; ou completamente expostos. 
Entre Janeiro de 2005 e Março de 2015, esses indivíduos foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional por motivos diversos. As duas outras pesquisas foram realizadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA com informações de 1.078 pessoas entre os 8 e os 18 anos, nascidas antes e depois da lei da fortificação dos alimentos no país.
Os voluntários fizeram ressonâncias magnéticas entre 2005 e 2015 por causas que variavam entre alteração no estado mental ao autismo. Ao comparar as imagens do cérebro dos jovens nascidos antes que os alimentos começassem a ser suplementados com o ácido fólico, os pesquisadores descobriram que o aumento da exposição à vitamina B9 no útero estava associado a mudanças futuras no desenvolvimento do cérebro.
Essas alterações tiveram relação directa ao risco reduzido de sintomas de psicoses. O autor sénior do estudo, psiquiatra Joshua Roffman, explica que transtornos mentais como autismo e esquizofrenia iniciam-se antes ainda de a criança nascer.  Por isso, o investigador aposta em abordagens que invistam na prevenção pré-natal.
“Se ao menos uma fracção desses casos pudesse ser prevenida por meio de uma intervenção benigna e já disponível ao longo da gestação, isso poderia ser transformador para a psiquiatria, da mesma forma que as vacinas foram para doenças infecciosas ou a ‘fluoretação’ (uma tecnologia de Saúde Pública, empregada desde 1954 para a prevenção da cárie dentária) da água para a odontologia”, acentua Joshua Roffman.
“Os nossos resultados com ácido fólico são um importante passo nessa direcção”, afirma o investigador. Segundo Joshua Roffman, os exames de todos os estudos avaliados mostram que os jovens nascidos depois da implementação da norma da fortificação dos alimentos com ácido fólico exibem padrões de maturação cortical diferente.
Eles apresentam um tecido cerebral mais espesso e sinais de adelgaçamento tardio do córtex cerebral nas regiões do órgão associadas à esquizofrenia, comparados aos que nasceram antes da regra.
Já aqueles gerados no início da implementação da suplementação alimentar com B9 apresentam uma estrutura cerebral intermediária entre esses dois cenários. O afinamento precoce e acelerado do tecido do córtex já foi associado, em trabalhos anteriores, ao risco de autismo e de psicoses.

Nutrientes adequados

Em 1969, um artigo publicado no extinto “Irish Journal of Medicine Science” encontrou uma associação entre carência de vitamina B9 e psicoses alucinatórias em pacientes com epilepsia.
Os autores compararam os níveis do micro-nutriente em pessoas com esquizofrenia e indivíduos que passaram a apresentar sintomas semelhantes aos da doença depois de começarem a tomar algumas drogas anti-convulsivas. A conclusão do estudo foi de que esses remédios diminuíam a absorção da substância, o que, por sua vez, deflagrava crises psicóticas.
O trabalho do Departamento de Psiquiatria do Hospital Geral de Massachusetts  confirma o papel protector do ácido fólico em relação à psicose, quase meio século depois da divulgação do artigo publicado no “Irish Journal of Medicine Science”.
A falta de nutrientes adequados durante a gestação aumenta o risco de psicoses na descendência, um facto que ficou evidente depois de ter havido uma carência de alimentos na Holanda, em 1944-1945, durante o inverno, quando um bloqueio alemão impediu o acesso destes produtos e combustível àquele país, afectando 4,5 milhões de pessoas.
Estudos mostraram que as taxas de esquizofrenia em crianças geradas durante esse período foram duas vezes maiores do que noutras épocas da história holandesa.
Durante a “Grande Fome”, nome por que ficou conhecido esse período, também houve crescimento de casos de outras anomalias do sistema nervoso central, como espinha bífida.
O mesmo ocorreu na China entre 1958 e 1961, quando a política do “Grande Salto em Frente” deixou uma população de famintos e de 20 milhões de mortos. O aumento da incidência da esquizofrenia entre pessoas geradas nesse intervalo foi semelhante ao verificado na Holanda.

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