O Caribe.

O que hoje conhecemos como o Caribe é um território onde se forjaram essas culturas que hoje, na sua diversidade, demonstram a existência de um mundo enorme com características diferentes.

ATUALMENTE, a palavra Caribe indica uma noção que inclui não só uma diversidade cultural inquestionável estendida por várias ilhas — arquipélagos de fato, alguns ainda inexplorados — circunvaladas por territórios do continente, especialmente no arco do Golfo do México e da Flórida às costas brasileiras de São Luiz de Maranhão, passando pelas da América Central, especificamente aquelas latitudes como Puerto Limón, na Costa Rica; ou Bluefields, na Nicarágua.

O que hoje conhecemos como o Caribe era conhecido, pelo menos na primeira metade do século 20, sob o nome de Antilhas e em seus territórios se forjaram essas culturas que hoje, na sua diversidade, demonstram a existência de um mundo enorme com características diferentes.

Já em 1934, o jovem poeta de Camaguey Nicolás Guillén tremulava, como uma bandeira de identidade, o seu lema: «Isto foi escrito por Nicolás Guillén, antilhano», colocado no final do seu fluvial e longo poema West Indies, Ltd. As Antilhas, de então, devoradas pelas fauces imperiais (1), sem consciência de sua história amarga, apesar de todas as armadilhas políticas, amontoavam-se procurando seu ser, que, aliás, percorria o que alguns chamaram de Torre de Babel. A verdade é que esse Caribe da nossa época forjou sua unidade muito a despeito das diferenças linguísticas que as Antilhas têm.

Hispânicas, inglesas, holandesas ou francesas estas ilhas, maiores ou menores integram, como é sabido, essa Torre de Babel cuja existência não impediu a comunicação mais simples através da música e da dança. Bate o tambor desde tempos imemoriais — como legado da escravidão, da economia de plantação, da dependência colonial — e todos nós sabemos o que esperar seja qual for nossa origem, seja qual for a cor da nossa pele ou a língua que falamos. Além de falar as línguas metropolitanas trazidas pelos conquistadores, fomos capazes de criar novas línguas, terceiros idiomas, que são conhecidas como os crioulos.

Mas a dança é aqui um gesto de compreensão, de identidade em plena combustão. No Caribe não podemos falar de uma única literatura, mas de diversas expressões literárias que se manifestam em diferentes línguas. A parte mais interessante desse processo é o aparecimento de literaturas escritas em crioulo, isto é, nos diferentes crioulos que são a manifestação mais autêntica do discurso popular. Entre nós, não há literatura sem registro da fala. Assim, há uma literatura emergente, de grande sucesso, baseada nesses crioulos que revelam segredos da alma e a psicologia social da região. É assim que nos entendemos.

Nossa arte, múltipla e dinâmica, faz a diferença porque nela transpiram a experiência histórica comum do chicote e da exploração, a injustiça e a desigualdade. A arte e a literatura do Caribe atingiram seu esplendor claro com as elegias de Nicolás Guillén e as aproximações do símbolo enigmático de Calibán que nos deixou Roberto Fernández Retamar. Mas também, em 1992, tanto Derek Walcott, um nativo da ilha de Santa Lúcia; como Dulce María Loynaz, nascida em Cuba em uma família de nobreza patriótica, levantaram-se com seus trabalhos para conseguir, respectivamente, o Prêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Cervantes naquela data.

O martiniquense Patrick Chamoiseau obteve o Prêmio Goncourt naquele ano de 1992 para integrar, com Édouard Glissant e Frantz Fanon, a tríade mais importante do universo francofone.

Aqueles que visitam algumas ilhas anglófonas, como Jamaica ou Trinidad e Tobago, ficarão surpresos em seu percurso ao encontrar nomes hispânicos e franceses em dois países onde a população fala preferencialmente inglês. Despertavam anglófonos e, à tarde, tornavam-se franceses. Oito rios, Sabanalamar, entre outros, são os nomes de regiões legitimamente autóctones. Somos um caldeirão de culturas. Somos uma civilização: uma soma de civilizações.

Ambas com a mais firme vontade de lutar por um mundo melhor, o que é possível. Como dizia Alejo Carpentier, as culturas dos povos que habitam o Caribe nos rodeiam, são imensas, telúricas e embora rodeadas por um poderoso mar, estabelecem-se em uma história lendária impossível de ser esquecida, impossível de ser negada.

 

Categories: AMERICA LATINA, Caribe, CULTURAIS, SOCIEDADE, Uncategorized | Etiquetas: | Deixe um comentário

Navegação de artigos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: