A vida indígena causa fobia em Bolsonaro e seus aliados.

E, para transtorno de Bolsonaro, os povos indígenas têm conseguido dar respostas diretas às agressões, seja por meio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), as associações,, organizações, federações, ou pela voz de lideranças ecoando nas redes sociais e na imprensa. E mesmo dentro do Congresso Nacional, com a deputada Joênia Wapishana (Rede-RR) e a Frente de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas que ela lidera.

No dia 17 de abril, a APIB lançou uma nota sobre o uso da Força Nacional contra os povos indígenas que estarão em Brasília essa semana para o ATL: “Parem de incitar o povo contra nós! Não somos violentos, violento é atacar o direito sagrado a livre manifestação com tropas armadas, o direito de ir e vir de tantas brasileiras e brasileiros que andaram e andam por essas terras desde muito antes de 1500.” Sem se intimidar, declaram: “Seguiremos em marcha, com a força de nossa cultura ancestral, sendo a resistência a todos esses ataques que estamos sofrendo.”

Na vaquinha virtual para arrecadar fundos, listaram 11 medidas de ataques aos direitos dos povos indígenas, como a transferência da Funai para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a entrega das pastas da Demarcação e licenciamento ambiental para o Ministério da Agricultura, a extinção da Secretaria de Educação Continuada (SECADI/MEC), do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), além do aumento de conflitos territoriais (“devido ao discurso que afirma ‘não haverá um centímetro de terra demarcada’”), liberação de porte de armas que aumenta a violência no campo, exploração dos recursos nas terras indígenas, municipalização da saúde indígena.

Bolsonaro recebeu cinco indígenas no Planalto levados pelo ruralista Nabhan Garcia, presidente da UDR e secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, e aproveitou o momento para uma live com suposta aparência de improvisação.

Bolsonaro sabe dividir para conquistar, ou então fomentar as divisões políticas para desestabilizar os povos sob ataque, e fazer uso dos antigos instrumentos coloniais. Aproveitou a brecha de que Dilma Rousseff jamais havia recebido os povos indígenas nas vésperas do ATL. E fez uso do racismo cordial para propulsar a inferiorização dos povos indígenas sob o lema do “integrar”, “querem ser que nem nós”, “querem consumir”, “querem produzir”, e atacar as demarcações e incentivar o garimpo e a mineração (uma hora Nabhan corrige um dos indígenas, “fala mineração, não garimpo”).

Foi respondido por diversas lideranças – mas viralizou um vídeo dos Yanomami respondendo Bolsonaro. Nele, o brilhante xamã Davi Kopenawa diz: “o senhor fala que Yanomami está passando fome e sofrendo. Ninguém está sofrendo, ninguém está passando fome, ninguém está necessitado ajuda do governo, o povo Yanomami precisa garantir a nossa terra homologada, registrada e assinada pelo presidente Collor de Mello.”

O que Davi Kopenawa expôs, também, foi a relação entre economia e a ideologia de Bolsonaro, isto é, o efeito estrutural do racismo em regular a ideologia e a estrutura econômica.

Como disse Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB, para a senadora Thronicke no Senado, “não dá para a gente escutar dos parlamentares dessa casa e chegar aqui e pregar sua visão racista, alienada, preconceituosa contra nós e a gente ficar calados”. A líder indígena desfez o faz de conta desse governo truculento que diz que “gosta de índio”, que Bolsonaro e Damares dizem que “índio é meu irmão”, mas que irmão é esse que quer matar? Contra o disfarce construído pelo racismo, ela expôs: “assumam que não respeitam, não fiquem fazendo de conta que gostam de índio.”

O conflito, diz Sonia, está no campo, no cotidiano dos povos indígenas contra o agronegócio. E levantou a cortina de fumaça da suposta “integração”: a ganância do agronegócio, a flexibilização de direitos para a exploração dos territórios, a destruição pensando no lucro para atender ao capitalismo.

Felipe Milanez é professor de Humanidades na Universidade Federal da Bahia. Pesquisa e milita em ecologia política.

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