Iván Duque provoca a Venezuela diante de uma Europa cúmplice

Neste último domingo (23), o presidente colombiano, Iván Duque, concedeu uma entrevista à agência espanhola Europa Press que está tendo grande repercussão, principalmente pela virulência de seus ataques contra o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por Wevergton Brito Lima  x

 

Emmanuel Macron, presidente da França, saúda seu homólogo, presidente da Colômbia / Foto: SIG

Emmanuel Macron, presidente da França, saúda seu homólogo, presidente da Colômbia

A entrevista de Iván Duque (clique aqui para ler) aconteceu no marco do périplo que o mandatário colombiano fez pela Europa durante oito dias (de 18 a 24/6). Ambas, tanto a viagem quanto a entrevista, chamam a atenção por terem sido monotemáticas: na entrevista indagou-se exclusivamente sobre a Venezuela, e assim também Duque fez da República Bolivariana o principal ponto de pauta de suas reuniões com autoridades europeias e declarações à imprensa. No entanto, sobre a Colômbia pouco se questionou o presidente deste país que teria muito a explicar.

Por exemplo: um dia antes de Iván Duque chegar a Londres, uma pesquisa de opinião mostrou que 60% dos colombianos desaprovam o seu governo.

Pudera, enquanto Duque quer “salvar o povo da Venezuela” do “regime de Maduro” este valente país caribenho, mesmo cercado, bloqueado e vítima de todo o tipo de sabotagens, aparece na 78ª posição do último Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, divulgado em setembro de 2018, uma posição à frente do Brasil (79º colocado) e doze posições à frente da Colômbia (90ª posição).

Os jornalistas que na citada entrevista mostram tanta preocupação com os direitos humanos na Venezuela, esqueceram convenientemente de perguntar sobre os direitos humanos no país do entrevistado.

A Colômbia, uma das nações mais militarizadas do planeta, com um membro do exército para cada 220 habitantes (médico, existe um para 543), é também palco constante de assassinatos impunes de ativistas sociais. Segundo ensaio publicado em maio pelo “Instituto Tricontinental de Pesquisa Social” e reproduzido pelo site i21 “no intervalo de tempo desde a assinatura do acordo de paz (entre o Estado colombiano e as FARC, em novembro de 2016) até abril de 2019, se registraram 596 assassinatos de líderes sociais”.

Foto: María del Pilar, mais uma líder social assassinada na

Colômbia
De forma macabra, este número aumenta diariamente. Na sexta-feira (21), enquanto Iván Duque dava aulas sobre democracia na Europa, María del Pilar Hurtado Montaño, líder social, foi assassinada em Tierralta, no departamento de Córdoba. A autoria do crime é mais do que conhecida: o grupo paramilitar “Autodefesas Gaitanistas da Colômbia”, ligado à mesma extrema-direita na qual se perfila Iván Duque. Apesar de o próprio grupo ter anunciado em panfleto que iria realizar o assassinato devido a atuação de María del Pilar na luta camponesa local, a polícia colombiana declarou que “está fazendo as investigações correspondentes, a fim de estabelecer os motivos e autores do crime”.

Foto: Carlos Biscué, líder indígena assassinado

Pilar foi assassinada no dia 21 e menos de dois dias depois outro líder social, Carlos Biscué, dirigente indígena e agricultor, foi baleado e morto no município de Caloto, departamento de Cauca. Biscué foi morto no mesmo dia da publicação da entrevista de Duque à Europa Press.

Os oposicionistas colombianos já sabem que também neste caso outro “rigoroso inquérito” será instaurado para, com muita probabilidade, não apurar rigorosamente nada.

Isto porque a oligarquia colombiana tem ligações estreitas com os grupos paramilitares que, por sua vez, têm representantes em todo o aparelho judicial e policial do Estado.

Um parênteses: na Colômbia temos um aparelho judicial e policial que se degenerou (por interesse ou por covardia), transformando-se em mero serviçal da extrema-direita e das milícias paramilitares armadas que lhes dão apoio, o que não deixa de ser um perigoso aviso para outras nações da região também governadas pela extrema-direita.

 
A resposta bolivariana

Voltando à entrevista de Iván Duque para os lamentavelmente “mal- informados” jornalistas da Europa Press. O presidente colombiano disse, entre outras coisas, que a principal chance de afastar Maduro é conseguir dividir a Força Armada Nacional Bolivariana: “Fui muito claro; mais que uma solução militar de caráter estrangeiro, hoje o que é preciso é garantir a ruptura no seio das próprias forças militares na Venezuela”, declarou.

A resposta do governo Venezuelano não tardou. O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, escreveu em sua conta no twitter: “Enquanto Duque viaja pelo mundo para promover golpes militares na Venezuela, na Colômbia a crise nos Direitos Humanos agrava-se dramaticamente. Volta a guerra, assassinam líderes sociais e ex-combatentes quase diariamente, produzem mais droga e mais pobreza”.

Já nesta segunda-feira (24) durante a comemoração do 198º aniversário da Batalha de Carabobo (1) que também é o Dia do Exército Bolivariano, o presidente Nicolás Maduro declarou que “Iván Duque pretende se estabelecer como comandante-em-chefe da FANB, e eu autorizo a FANB a responder à oligarquia de Bogotá como ela merece“, declarou o Chefe de Estado Venezuelano, acrescentando que o Governo da Colômbia é herdeiro da traição e representa “aqueles que se ajoelham ao império gringo“.


Quando o que prevalece é a mentira

Mas durante sua estada na Europa, Iván Duque, representante de um governo que deixa a maioria de seu povo vegetar na pobreza, repressor, ligado às milícias paramilitares que por sua vez são diretamente ligadas ao tráfico de drogas, foi o todo tempo tratado, pelos outros chefes de estado, como um paladino da democracia. Assim aconteceu ao se reunir com a demissionária primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, no início de sua viagem. Nesta reunião Duque foi pródigo em falar bem do seu próprio governo e mal da Venezuela. Uma receptiva May ouviu tudo com um sorriso nos lábios, pois entre o presidente Maduro e Iván Duque, a dirigente britânica e seus pares europeus não hesitam em se perfilar ao lado de Duque.

Isso não ocorre, é claro, em nome de interesses comerciais e neocoloniais, mas pela democracia e os “direitos humanos”, ideais tão bem representados, como vimos, pelo mandatário colombiano. Além disso, Duque vem de uma longa linhagem de oligarcas, enquanto Nicolás Maduro tem indisfarçável origem na plebe: eis que não passa de um simples ex-motorista de ônibus com cara de quem canta salsa em karaokê, já Iván Duque, convenhamos, poderia até passar por um europeu e ser convidado para o chá das cinco. É como já dizia um conterrâneo de Theresa May: “Que formosa aparência tem a falsidade! (2)”.

 

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