O Governo Trump é ou não fascista?

“Trump demonstrou como combinar políticas econômicas regressivas com uma imagem populista, atacando minorias e elites”.  X

Por Andrew Gawthorpe*

  
 
Em torno do crescimento global do populismo de direita, “fascista” tornou-se um qualificativo comum – que, na verdade, é superutilizado. A palavra “fascismo” é conveniente para os críticos da nova onda de retrocesso, que buscam vincular seus opositores a movimentos históricos que a maioria considera lamentáveis. Mas a palavra é conveniente também para a direita, permitindo-lhe demarcar seus críticos, evitando discussões sérias sobre a substância de suas políticas e retórica.

Mesmo o Partido Republicano trumpificado, nos EUA, não é um movimento fascista e Trump certamente não é Hitler. O fascismo geralmente surge sob a pressão do colapso econômico ou da guerra, mas é construído a partir de matérias-primas sociais e políticas pré-existentes. Mas, embora a era Trump não tenha visto a ascensão de um verdadeiro fascismo nos EUA, ela nos fornece insights aguçados e dolorosos sobre a matéria-prima a partir da qual um futuro fascismo estaduidense poderia ser construído.

Qualquer fascismo no futuro será diferente daquele do século XX. Mas terá que compartilhar características com seus antepassados, incluindo o ultranacionalismo, o não liberalismo, um forte impulso ao controle social e a eliminação forçada da oposição. Esse fascismo, em outras palavras, cortaria o que a maioria dos estadunidenses ainda reconhece – mesmo que apenas da boca pra fora – como os valores centrais de sua nação.

Ainda assim, a persistência de Trump em sua base mostra como uma coalizão contra valores caracteristicamente estadunidenses pode ser construída e usada para manter o poder, mesmo que represente apenas uma minoria no país. Em particular, Trump apela a dois grupos sobrepostos – evangélicos brancos e eleitores brancos motivados principalmente pela resistência contra mudanças raciais e culturais – cada um com suas próprias razões para abraçar o não liberalismo e endossar o poder de um Estado não liberal para ser usado contra seus inimigos.

O que esses grupos compartilham é a crença de que sua própria existência está ameaçada. O apoio cristão evangélico a Trump é freqüentemente motivado pelo medo de que os liberais seculares estejam buscando esmagar o cristianismo e bani-lo da Terra. Esse medo os leva a apoiar o autoritarismo para esmagar a oposição antes que ela tenha chance de atacar. Trump mostrou que os evangélicos apoiarão qualquer um que se importe com seus problemas – aborto, Jerusalém, liberdade religiosa – independentemente de sua repulsa óbvia por qualquer entendimento normal dos valores cristãos.

O coração pulsante desta ideologia será um nacionalismo branco motivado pela crença de que a América “verdadeira” (leia-se: branca) está sob o cerco de uma combinação de minorias raciais e elites liberais. Essa cosmovisão conspiratória também se presta a apoiar o uso do poder do Estado contra esses inimigos do povo. Para o futuro, o fato de Trump ter sido geralmente incompetente e desfocado no desmantelamento de normas e instituições democráticas liberais é menos importante do que o fato de que muitos de seus partidários apoiam claramente a idéia de que ele poderia fazê-lo.

Alguns pensadores conservadores começaram a estabelecer as bases intelectuais para desmantelar o liberalismo, a fim de salvar valores que consideram mais importantes, como a defesa de sua versão dos valores cristãos ou a defesa do poder cultural e político branco. Entre os mais extremos está o escritor católico Sorab Ahmari, que recentemente argumentou que o liberalismo não é mais compatível com o cristianismo e que a praça pública deveria ser reorganizada em busca do “Bem Maior”. Muitos outros escritores conservadores estão dispostos a desculpar o não liberalismo e o racismo de Trump argumentando que os inimigos do presidente representam uma ameaça muito maior a seus valores do que ele.

Os rabiscos de tais escritores são menos importantes pelas idéias que contêm do que para a compreensão de que vivemos num momento em que se tornou possível imaginar um EUA não liberal, flertando com as forças que o poderiam levar até o fascismo. Os intelectuais não liberales estão começando a ver o movimento Trump como uma força a ser aproveitada na busca de fins antidemocráticos. Ainda não se sabe o limite do que aqueles que cantam em comícios de Trump, dizendo que querem prender as pessoas e mandá-las embora, tolerariam na prática. Mas devemos temer a descoberta desses limites.

Um fascismo estadunidense não só se juntaria ao cristianismo e ultranacionalismo através de uma crença compartilhada em conspirações para destruir os EUA, mas também procuraria manter o apoio do capital. Trump demonstrou como combinar políticas econômicas regressivas com uma imagem populista, atacando minorias e elites. Qualquer um que defenda a reforma econômica progressista é rejeitado como comunista e, portanto, como não-americano – outra razão para se alinhar a um homem forte que manterá aquela ameaça fora do poder.

Essas são as matérias-primas a partir das quais um futuro fascismo estadunidense pode ser construído. Tal eventualidade não é apenas incerta, mas positivamente improvável, especialmente na ausência de um desastre econômico, de grandes guerras ou de um ataque terrorista devastador. Mas não é mais inimaginável, e se tornará ainda menos se a América cristã continuar branca, reagindo da mesma forma à sua perda de poder. Por essa razão, a palavra fascista merece seu lugar no vocabulário político de nosso tempo, não como uma descrição do presente, mas como um presságio de um possível futuro sombrio.

 

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