Como os latifundiários formaram grupo no WhatsApp para queimar a mata.

Fazendeiros bolsonaristas formam grupo no WhatsApp para coordenar o “dia do fogo” no Sul do Pará.

Por José Carlos Ruy

No “dia do fogo”, houve enorme crescimento no número de focos de incêndio no sul do Pará

A ideia absurda de parte da elite latifundiária, de estar à margem e acima da lei, resultou no enorme desastre ambiental a que os brasileiros e o mundo assistem estarrecidos – o grande aumento nas queimadas na Amazônia. Eles se sentem representados e autorizados pelo presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, que, ao falar absurdos e impropriedades sobre o meio ambiente, sinaliza, desde o alto, do mais importante cargo da República, o de presidente, o descumprimento da lei, abrindo a porteira para incendiários – e simultaneamente jogando a culpa, sem provas, sobre ONGs e ambientalistas.

Essa realidade sórdida foi demonstrada num artigo da revista Globo Rural, publicado no domingo (25), sob o título de “Grupo usou WhatsApp para convocar ‘dia do fogo’ no Pará”. Conforme o artigo, um grupo com 70 participantes foi formado nessa rede social e marcou a data (10 de agosto) para as queimadas no sul do Pará – e deu a ela o nome de “dia do fogo”.

Houve um enorme crescimento no número de focos de incêndio na região, em torno da rodovia BR-163, nos municípios de Altamira e Novo Progresso. Nesta última cidade, o aumento do número de focos de incêndio na mata foi de 300% no dia 10, um sábado, em relação ao dia anterior. Foram registrados 124 focos. No domingo, foram ainda mais, diz a reportagem: 203 casos. Em Altamira, o aumento foi ainda maior: 743% a mais de um dia para o outro; no domingo havia lá 237 focos de incêndio.

Segundo a reportagem, o grupo de incendiários do WhatsApp é formado por “sindicalistas [a reportagem não esclarece, mas certamente são de sindicatos patronais…], produtores rurais, comerciantes e grileiros”. Eles tinham o objetivo de “mostrar ao presidente Jair Bolsonaro que apoiam suas ideias de ‘afrouxar’ a fiscalização do Ibama e quem sabe conseguir o perdão das multas pelas infrações cometidas ao Meio Ambiente.”

Segundo o jornal Folha do Progresso, aqueles fazendeiros incendiários pretendiam mostrar a Bolsonaro que querem “trabalhar e o único jeito é derrubando. E para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo”, disse um dos organizadores do “queimadaço”. Almejam também o perdão de multas, pretensão que certamente está por trás da declaração de uma daquelas latifundiárias, que recentemente foi multada justamente por queimar ilegalmente a mata, e que – ouvida pela reportagem – alegou, sem provar, que agentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio – um órgão do governo subordinado ao Ministério do Meio Ambiente) teriam ateado fogo na mata, reforçando assim o argumento descabido e não provado de Bolsonaro (que seu filho Flávio repercutiu nas redes sociais) de envolvimento de ONGs nas queimadas.

A acusadora dessa falsidade é pecuarista identificada como Nair Brizola (de Cachoeira da Serra, um distrito de Altamira) que, também sem apresentar qualquer provas, disse que um carro do ICMBio teria sido usado por incendiários. E acenou para o presidente da República: “O presidente Bolsonaro tá certo quando diz que essas ONGs estão botando fogo,” disse. Ela própria, entretanto, recentemente recebeu multa de R$ 1 milhão, acusada de “destruir 70,93 hectares de floresta do bioma amazônico mediante uso do fogo”, na Reserva Biológica da Serra do Cachimbo, no Pará.

Marcos Aurélio Venancio, diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio, citado em texto da jornalista Daniele Bragança, no portal ((o)) Eco, desmentiu as acusações da pecuarista. E garantiu que o ICMBio vai investigar se pessoas ligadas ao órgão incentivaram a prática ilegal. “Repudiamos qualquer agressão ao meio ambiente e vamos ser rígidos na apuração desses fatos”, disse.

O “dia do fogo” foi revelado no dia 5 de agosto pelo jornal Folha do Progresso – quase uma semana antes do aumento das chamas na região. Dizia que os produtores se sentem “amparados pelas palavras do presidente” Bolsonaro e coordenaram para o mesmo dia a queima de pasto e áreas em desmatamento. Um dos líderes da articulação incendiária, ouvido pelo jornal – sob condição de anonimato – disse que o objetivo é mostrar ao presidente que querem trabalhar, um argumento absurdo para infringir a lei.

O Ministério Público Federal no Pará, que investiga o “dia do fogo”, questionou o Ibama, em Itaituba (Pa) antes da data prevista para o “queimadaço”, sobre a necessidade de fiscalização preventiva. A resposta do Ibama foi uma reafirmação da escassez de recursos para isso, confirmando na prática o abandono imposto pelo governo federal a essa atividade de proteção ambiental. O Ibama informou ao MPF que as atividades de fiscalização estavam prejudicadas pela falta de recursos e de apoio da Polícia Militar. O Ibama só pode enviar uma viatura para “fortalecer a brigada do Prevfogo em Itaituba”!

Tamanho descalabro está registrado no documento inicial da investigação, de autoria do procurador Paulo de Tarso. Pode-se, diz aquela autoridade, “constatar, diante de tal cenário, grave negligência do Estado na proteção da floresta amazônica, o que abre larga margem para ações desenfreadas por infratores contra o meio ambiente. Tem-se, ainda, notícia de que os focos de incêndio ocorreram, inclusive, no interior de áreas públicas federais, como Unidade de Conservação Flona do Jamanxim, recategorizada por lei que reduziu drasticamente sua área, e, Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, a qual já sofre intensa pressão por grileiros, fazendeiros e mineradores, sendo de extrema relevância a investigação dos possíveis crimes ambientais perpetrados em seus interiores durante a ocorrência das queimadas noticiadas”.

É um depoimento eloquente sobre o descaso ambiental do governo da extrema-direita, que abre a porteira para os crimes cometidos por latifundiários incendiários. Para o MPF, “o enfrentamento do desmatamento ilegal é uma política de Estado, não de governos específicos”, previsto em compromissos nacionais e internacionais assumidos pelo Brasil e impostos pela Constituição de 1977 e pela Política Nacional de Meio Ambiente – compromissos jogados na lata do lixo pelo governo da extrema-direita.

“Em suma, o enfrentamento do desmatamento e das queimadas não é faculdade do Poder Público. É dever!”, diz o documento inicial da apuração daquela verdadeira conspiração do fogo.

O atrevimento desses latifundiários incendiários bolsonaristas, de extrema-direita, se traduz na recusa da responsabilidade social que o uso da propriedade privada implica e a Constituição brasileira obriga. É propriedade deles – e acabou… o Estado e as leis devem, em sua opinião, deixá-los livres para agir – seja contra o meio ambiente, seja contra os direitos dos trabalhadores, seja contra a imagem do Brasil no mundo. São irresponsáveis que, a título de defesa do direito de propriedade, tocam fogo na própria casa.

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