Os preços do gás sobem “por causa da Rússia” (e depois esvaziam): o que se passa?

#AhiLesVa #Gas #Russia

#ParaísosFiscais, #Lasso, #Piñera e #Abinader, a #CaixaDePandora está aberta ..

#ParaisosFiscais #PapelesDePandora

A extensa investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelou no domingo que 14 líderes mundiais e 21 outros líderes que desde então deixaram o poder esconderam bens e rendimentos no valor de milhares de milhões de dólares para evitar pagar impostos em paraísos fiscais.

Os ficheiros vazados, apelidados de Pandora Papers, incluem 35 líderes mundiais – ainda no poder ou reformados – e mais de 300 funcionários públicos em todo o mundo que detêm bens em ou através de paraísos fiscais.

Os Documentos de Pandora incluem, entre outros estadistas, os três actuais líderes latino-americanos: o Presidente do Equador, Guillermo Lasso, o Presidente do Chile, Sebastián Piñera e o líder da República Dominicana, Luis Abinader. Além disso, as fugas incluem outros altos funcionários latino-americanos: 11 presidentes reformados, 90 políticos de alto nível e um governador de um banco central.

Guillermo Lasso
De acordo com os documentos divulgados, o Presidente equatoriano Guillermo Lasso teve ligações a 10 empresas offshore e trusts no Panamá e nos estados americanos do Dakota do Sul e Delaware: Bretten Trust, Liberty US Trust, Bernini Foundation, Bretten Holdings, Da Vinci Foundation, Fundación Bienes Raíces, Nora Group Investment Corp, Pietro Overseas SA, Positano Trade LLC e Tintoretto International Foundation.

Bretten Trust e Liberty US Trust foram criados em 2017, e a Lasso autorizou a transferência para esses dois trusts de empresas operadas por duas fundações de interesse privado panamenses, denominadas Bernini e Barberini. De acordo com as regras de cada fundação, seriam feitas distribuições mensais aos beneficiários após a morte de Lasso, incluindo $20.000 à sua esposa, $2.000 aos seus filhos e $1.500 ao seu irmão.

Lasso disse ao ICIJ que não tem “nenhuma relação de propriedade, controlo, benefício ou interesse de qualquer tipo” com o Bretten Trust e o Liberty US Trust e que sempre cumpriu a legislação equatoriana que proíbe candidatos e funcionários públicos de deter empresas em paraísos fiscais.

As outras entidades mencionadas foram dissolvidas e, tal como confirmado pelo presidente do país latino-americano, não têm actualmente existência legal, enquanto que a utilização passada de qualquer entidade internacional era legítima.

Luis Abinader
O presidente dominicano está ligado a duas empresas panamenhas: Littlecot Inc. e Padreso SA, criada antes de a Abinader assumir a presidência do país em 2020. Os ficheiros indicam que as acções eram inicialmente “acções ao portador”, um mecanismo que permitia esconder a identidade dos proprietários das acções.

No entanto, em 2015, uma lei panamenha obrigou as empresas a revelar os nomes dos proprietários de tais títulos. Em 2018, um representante da família presidencial enviou um documento ao prestador de serviços offshore Overseas Management Corp. Nele, os irmãos de Abinader foram listados como accionistas da Littlecot Inc e da Padreso SA em vez de “al tenedor”.

Por seu lado, o presidente dominicano esclareceu ao ICIJ que a Littlecot Inc. possui uma propriedade familiar na República Dominicana, enquanto que a Padresso SA detém acções em seis outras entidades com propriedades e extensões da universidade privada propriedade da sua família.

Quanto às acções ao portador, a Abinader esclareceu que as entidades em questão foram criadas “por consultores que contratámos para comprar as empresas nestas jurisdições (neste caso, o Panamá)”. Explicou também que estes tipos de títulos eram utilizados para “facilitar as transacções comerciais com clientes e reduzir os obstáculos administrativos para as empresas durante a constituição”.

Paralelamente, o líder salientou que é proprietário de entidades “offshore”, uma vez que a utilização de entidades dominicanas para “comprar bens ou trocar bens no estrangeiro costumava ser um desafio (e ainda é) devido à falta de reconhecimento que estas empresas têm em jurisdições estrangeiras”.

Entretanto, o porta-voz presidencial Homero Figueroa reagiu aos Pandora Papers na sua conta do Twitter, observando que a informação hoje divulgada reconhece “a transparência do presidente”.

Sebastián Piñera
O inquérito jornalístico aponta para o facto de que o actual presidente chileno Sebastián Piñera esteve envolvido em várias empresas offshore. Os filhos de Piñera detinham 33,3% das acções do projecto mineiro Dominga. Em Dezembro de 2010, quando Piñera já era presidente há nove meses, a sua família vendeu as suas acções na empresa mineira ao empresário Carlos Alberto Délano, um dos amigos de infância de Piñera. A venda foi feita através de duas empresas de fachada registadas nas Ilhas Virgens Britânicas.

A venda foi selada com dois minutos: um assinado no Chile por 14 milhões de dólares e o outro no mesmo paraíso fiscal por 138 milhões de dólares. O pagamento deveria ser feito em três prestações, mas com uma contingência: o último pagamento só seria feito se o governo chileno não declarasse a área de operações do projecto Dominga como um santuário natural. O governo de Piñera decidiu não promover a iniciativa ambiental e assim a terceira parcela foi desembolsada.

Esta decisão do governo Piñera foi precedida por outra: em Março de 2010, o presidente anunciou o cancelamento da construção da central termoeléctrica de Barrancones, após uma onda de protestos de ambientalistas. O projecto foi encerrado apesar de ter as licenças para funcionar. Na altura, não se sabia que Piñera estava envolvido no projecto Dominga, segundo o Centro de Investigación Periodística (CIPER, Chile).

Além disso, os jornais publicados revelam que alguns dias antes de Piñera tomar posse em 2018, a empresa Parque Chiloé Overseas Inc. (Parque Chiloé Overseas Inc.). (registado nas BVI e ligado a ele) fundiu-se com o Parque Chiloé SA do Chile. Esta última foi então absorvida por outra entidade chilena, Inversiones Odisea, onde quatro dos filhos do presidente possuem acções.

Entretanto, o gerente das empresas familiares de Piñera, salientou aos investigadores que o inquilino de La Moneda não participou, nem tinha conhecimento dos detalhes da compra e venda do projecto Dominga. Ao mesmo tempo, ele especificou que nem Piñera, nem nenhum dos seus familiares directos têm controlo sobre empresas registadas nas IVB.

A Presidência chilena já emitiu uma declaração explicando, entre outras coisas, que a venda do projecto Dominga já foi objecto de uma investigação e que o Ministério Público “recomendou que o caso fosse encerrado devido à inexistência de um crime”.

Por seu lado, o jornalista Marco Teruggi salientou que é difícil processar os evasores fiscais, um facto que, na sua opinião, contribui para a desigualdade na América Latina. “Num continente tão desigual, em vez de contribuir para situações de necessidades extraordinárias – como as causadas pela pandemia – estas grandes fortunas decidem fugir para evitar pagar os seus impostos e, portanto, não contribuir para o bem comum”, disse ele.

Tomado de RT

O declínio dos Estados Unidos: um ponto de vista académico dominante.

#InjerenciaDeEEUU #CampañasMediaticas #China #EconomiaMundial

Por: Atilio Borón

Até há poucos anos atrás, nós, críticos do imperialismo dos EUA, éramos tradicionalmente ignorados pelos especialistas, académicos e os meios de comunicação social. Fomos acusados de sermos “ideológicos” e desrespeitosos das realidades da cena internacional, ou, em alguns casos, marginalizados; acusados de sermos apenas panfletários “antiamericanos” vociferantes que não mereciam qualquer consideração na opinião pública ou no mundo académico. No entanto, já não é este o caso.

HOJE, A LITERATURA QUE EXAMINA AS MUITAS DIMENSÕES DO DECLÍNIO DA AMÉRICA É IMENSA E ESTÁ A CRESCER A CADA HORA QUE PASSA. SURPREENDENTEMENTE, MUITOS À ESQUERDA AINDA SE AGARRAM À VELHA CONCEPÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS COMO UM PODER OMNIPOTENTE E INVENCÍVEL, QUE É AGORA UM RETRATO DO PASSADO.

A fim de exemplificar o verdadeiro estado do império americano, passarei em revista brevemente o artigo que Richard Haass publicou no início deste ano (11 de Janeiro de 2021) em Foreign Affairs. Haass está longe de ser um professor obscuro de Relações Internacionais ou um esquerdista convicto, sem uma audiência de massas.

Pelo contrário, ele é um pensador altamente influente no estabelecimento da política externa dos EUA. Durante quase duas décadas, presidiu ao mais importante grupo de reflexão sobre política externa dos Estados Unidos: o Council on Foreign Affairs. Anteriormente, como diplomata consumado, foi Director de Planeamento Político no Departamento de Estado e colaborador próximo do Secretário de Estado de George W. Bush, Colin Powell. Haass não é apenas um académico refinado – tem um doutoramento de Oxford; foi também um defensor convicto da infame “guerra ao terror” lançada pela Casa Branca após os ataques de 11 de Setembro de 2001.

Na verdade, o artigo que agora discutimos foi publicado na principal revista americana de política externa. O título da sua contribuição, “Presente na Destruição”, resume bastante bem a sua visão pessimista da política externa dos EUA e a diminuição do papel dos Estados Unidos na actual cena internacional.

O seu artigo foi escrito sob as sombrias impressões deixadas pelos acontecimentos de 6 de Janeiro no Capitólio, em Washington DC. Haass salienta, com razão, que as consequências e implicações do assalto por bandos de extrema-direita nos recintos da soberania popular nos Estados Unidos transcenderiam a esfera doméstica.

FOI UM GOLPE DEVASTADOR PARA A IMAGEM EXEMPLAR DOS ESTADOS UNIDOS COMO O “LÍDER NATURAL” DO CHAMADO MUNDO LIVRE E O MODELO A SER EMULADO POR TODOS OS PAÍSES QUE LUTAM PARA SE EMANCIPAREM DAS AUTOCRACIAS QUE OS OPRIMIRAM DURANTE SÉCULOS. ESTA CONFIGURAÇÃO DE CIRCUNSTÂNCIAS NACIONAIS E INTERNACIONAIS ASSINALA, SEGUNDO O NOSSO AUTOR, O ADVENTO DE UM “MUNDO PÓS-AMERICANO, UM MUNDO QUE JÁ NÃO É DEFINIDO PELA PRIMAZIA DOS ESTADOS UNIDOS”.

Uma situação negativa, acrescenta, que “vem mais cedo do que geralmente se esperava, não tanto devido ao inevitável aumento de outras potências, mas por causa do que os Estados Unidos fizeram a si próprios”. O resultado final desta série de acontecimentos, entre os quais a desastrosa administração de Donald Trump desempenha um papel crucial, é um “acentuado declínio da influência dos EUA, em benefício da China, Irão e Rússia”.

Haass tenta aliviar a ansiedade que a sua opinião poderia produzir entre os seus concidadãos, assegurando-lhes que mesmo no “mundo pós-americano, o poder e a influência dos EUA continuam a ser substanciais”. Mas ele qualifica subtilmente a sua afirmação afirmando que a crença tradicional no “excepcionalismo americano” deve ser definitivamente arquivada.

Após a invasão do Capitólio, perdeu-se uma componente decisiva do “poder suave” dos EUA: a ideia de que a democracia americana é um exemplo brilhante (e intemporal) para o resto do mundo. O país tem agora de enfrentar, com recursos de poder reduzidos, “grande rivalidade de poder” (China e Rússia, antes de qualquer outro), bem como desafios globais complexos como as alterações climáticas, doenças infecciosas e pandemias futuras, grandes migrações de pessoas (deslocadas por guerras, secas, inundações, pobreza, crises políticas), proliferação nuclear, terrorismo e ameaças cibernéticas.

A mensagem do artigo é clara e simples: “um mundo ‘pós-americano’ não será dominado pelos Estados Unidos, mas isso não significa que tenha de ser liderado pela China ou definido pelo caos”. A China emerge como o grande inimigo, já não é apenas um concorrente económico. A Nova Guerra Fria está aqui e os diplomatas americanos não pouparão esforços para convencer – ou chantagear – os líderes de muitas nações de que a escolha é entre os Estados Unidos ou a China. E, se eles não fizerem a escolha certa, certamente reinará o caos. Esperemos que não sejam bem sucedidos nessa campanha.

Tirado de CubaDebate

Para além da vassalagem aos EUA e Celac: a razão pela qual a OEA vai desaparecer.

#EUA #OEA #CELAC #EconomiaMundial #UnionEuropea #CHINA

Javier Buenrostro, historiador por la Universidad Nacional Autónoma de México y McGill University.

Javier Buenrostro, historiador por la Universidad Nacional Autónoma de México y McGill University.

A 18 de Setembro, o México acolheu a VI Cimeira da Comunidade dos Estados da América Latina e das Caraíbas (CELAC), dois dias após a celebração da independência do México. Havia muitas expectativas para esta reunião em que participaram 31 nações e onde se especulava que a substituição de uma Organização dos Estados Americanos (OEA) obsoleta e decadente, uma organização que nasceu em 1948 para proteger os interesses dos Estados Unidos durante a Guerra Fria no quadro dos acordos de Bretton Woods, a criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial e a imposição do dólar como moeda internacional de referência, poderia ser discutida em profundidade.

A OEA teve a sua quota-parte de baixos e altos na sua história, embora tenham existido mais vales do que picos. Um dos pontos mais baixos foi em Punta del Este (Uruguai) em 1962, quando foi decidido expulsar Cuba da organização, sendo o México e a própria Cuba as únicas nações a votar contra a resolução. Nos últimos anos, desde a liderança de Luis Almagro, a OEA tem demonstrado ser um organismo profundamente parcial a favor da direita latino-americana e dos interesses regionais dos Estados Unidos. Um caso em questão é o envolvimento da OEA e de Luis Almagro no golpe de Estado sofrido por Evo Morales na Bolívia, que só pôde ser revertido graças ao apoio esmagador do povo boliviano ao Movimento para o Socialismo (MAS) nas eleições seguintes.

A 6ª Cimeira Celac teve momentos de alguma intensidade, especialmente devido aos confrontos verbais entre os Presidentes Miguel Díaz-Canel (Cuba) e Nicolás Maduro (Venezuela), por um lado, e Luis Lacalle Pou (Uruguai) e Mario Abdo Benítez (Paraguai), por outro. A ausência do Brasil, devido à decisão da direita Jair Bolsonaro de sair no ano passado, e a participação precipitada da Argentina, devido ao cancelamento de Alberto Fernández no último minuto e à demissão a meio do evento do Ministro dos Negócios Estrangeiros Felipe Solá, também deixaram a sua marca na reunião internacional.

Mas a mensagem mais importante do Celac veio de fora da América Latina. O Presidente da China, Xi Jinping, foi o único convidado de fora da nossa área geográfica a dar uma mensagem, e este convite veio do México, o país anfitrião, que também detém a presidência pro tempore da Celac e, ao mesmo tempo, é um vizinho e importante parceiro comercial dos Estados Unidos. Uma combinação e tanto.

“O capitalismo tal como o conhecemos está em crise e a ordem global está a mudar a um ritmo acelerado, mantendo a direcção anteriormente prevista. E isto é que a China acabará por ser o actor económico global mais importante nas próximas três décadas”.

As críticas ao Presidente López Obrador da direita mexicana e ao conservadorismo não tardaram a chegar. Os condenados ao desastre mencionaram que a presença dos presidentes de Cuba, Venezuela e sobretudo da China durante a cimeira poderia fazer explodir as relações com os Estados Unidos. Estas opiniões mostram não só que a direita mexicana adoraria manter uma relação de vassalagem com os Estados Unidos, mas também a sua incapacidade de compreender que o mundo está a mudar e que não é o mesmo que foi durante a Guerra Fria, especialmente depois da pandemia de Covid-19.

Todas as análises económicas concordam que o mundo sofreu a pior recessão económica desde a Grande Depressão. O capitalismo tal como o conhecemos está em crise e a ordem global está a mudar a um ritmo acelerado, embora na direcção anteriormente prevista. E isto é que a China acabará por ser o actor económico mais importante do mundo pelo menos durante as próximas três décadas.

Mexico President Andres Manuel Lopez Obrador(C) poses for a photo with leaders and prime ministers during the summit of the Community of Latin American and Caribbean States (CELAC), at the National Palace in Mexico City, Mexico September 18, 2021. Mexico’s Presidency/Handout via REUTERS ATTENTION EDITORS – THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. NO RESALES. NO ARCHIVES

Dois acontecimentos paralelos à Cimeira do Celac confirmam isto. A primeira é que o Grupo Evergrande, até há pouco tempo o maior promotor imobiliário do mundo, está perto da falência com mais de 300 mil milhões de dólares de passivo. O que é impressionante é que, apesar dos números espantosos, os analistas excluíram uma crise financeira global como a que ocorreu em 2008 com o colapso da empresa americana Lehman Brothers. Parece que o problema ficará na China não só porque Evergrande tem lá a maior parte das suas dívidas, mas também porque a economia chinesa é capaz de absorver e lidar com esta crise financeira. Esta é a dimensão da economia e da capacidade financeira da China, se ainda tivéssemos dúvidas.

O outro facto que chamou a nossa atenção foi o discurso de Joe Biden à Assembleia Geral da ONU há alguns dias atrás. Biden foi muito claro que os EUA não querem uma nova Guerra Fria com a China ou um mundo dividido em blocos rígidos e, embora ele defendesse uma concorrência vigorosa com outras potências, evitou o discurso duro e confrontativo utilizado por Donald Trump. Biden era consciente e cauteloso face à nova realidade global que já é evidente aos olhos do mundo, com excepção de certos conservadores antiquados que ainda pensam que vivemos no mundo que foi forjado no pós-guerra, há mais de setenta anos.

Nem os acordos de Bretton Woods, nem o mal denominado Consenso de Washington, nem o Fundo Monetário Internacional, nem o Banco Mundial, nem a dolarização da economia são já os princípios orientadores da economia mundial, nem devem ser as vozes orientadoras das organizações internacionais, nem devem ser as vozes orientadoras da política externa na América Latina. A OEA já está morta e o seu coveiro não será o CELAC, mas a ordem económica mundial que lhe deu origem e que agora também está defunta.

A nova ordem, pelo menos no futuro imediato, será baseada no multilateralismo, mas na qual a China desempenhará um papel preponderante ao lado dos Estados Unidos, que também manterão um papel de liderança. O unilateralismo não é uma opção e a cooperação internacional terá de se tornar uma realidade e deixar de ser puro discurso e boas intenções.

López Obrador deu um passo nesta direcção na Cimeira Celac, convidando os restantes participantes a construir algo semelhante no continente americano à Comunidade Económica que deu origem à actual União Europeia. Ou seja, criar um corpo mais equitativo e plural e não apenas um que sirva os interesses dos Estados Unidos. Isso já não funciona na realidade.

Extraído de RT

EUA lançam ideia controversa para expandir aliança de inteligência  ‘los Cinco Ojos’ 

#EstadosUnidos #LosCincoOjos #China #India #Economia #CIA #Espionaje

Putin acusa países líderes de bombear dinheiro para as suas economias em vez de ajudar outros no meio de uma pandemia..

#Economia #Covid-19 #SaludMundial #Putin

O Presidente russo Vladimir Putin disse na sexta-feira que os países líderes estão a injectar dinheiro nas suas economias no meio de uma pandemia, em vez de ajudar as nações em desenvolvimento que necessitam de assistência no meio de uma emergência sanitária. Na opinião de Putin, os países desenvolvidos que fabricam vacinas estão a fazer pouco para proteger a humanidade da pandemia.

A este respeito, o líder russo recordou que o Ocidente não levantou restrições contra o Irão, apesar de a nação persa precisar de ajuda para conter a propagação do coronavírus. “E eu nem sequer menciono outros países. Olha para a Venezuela, a política é política, mas as questões humanitárias continuam a ser humanitárias”, disse ele.

Durante a sessão plenária do Fórum Económico Oriental em Vladivostok, Putin também instou a não politizar a questão da origem do coronavírus e, em vez disso, a concentrar-se no combate à doença.

“É correcto descobrir as causas, as origens de um ou outro fenómeno. A coisa errada a fazer é politizar”, disse o presidente, acrescentando que “materiais objectivos” deveriam ser utilizados como guia.

“Quando a politização começa, a confiança nas conclusões baseadas numa abordagem politizada cai imediatamente, porque há um sentimento imediato de que estamos longe da verdade”, disse Putin.

Cesta Básica – Executivo suspende, temporariamente, pagamento dos direitos aduaneiros .

#Angola #Economia #Covid-19

A crise da hegemonia dos EUA .

#EstadosUnidos #DerechosHumanos #TerrorismoMadeInUSA #HegemoníaDeEEUU #EconomiaMundial

Há consenso sobre o declínio da hegemonia dos EUA. É uma questão de especificar a natureza e profundidade desse declínio. Desapareceram os dias dos Mitos e Realidades do Declínio Americano, um livro de Henry Nau, um grande sucesso não há muito tempo: 1992.

O raciocínio baseou-se na liderança económica da América no mundo, uma afirmação indiscutível do autor, que mal escondia a continuidade do “destino manifesto” do país. Contudo, os Estados Unidos já tinham aderido ao modelo neoliberal, que se destinava a arrastar toda a economia mundial, com consequências desastrosas em termos de baixo crescimento e criação de emprego. A economia mundial já tinha entrado num novo e longo ciclo de recessão.

Contudo, outro movimento já estava em curso no mundo: o crescimento recorde da economia chinesa. No início, os Estados Unidos não acreditavam que a China fosse um concorrente económico para eles. Não só foram presos pelo seu dogma de que só as economias de mercado livre têm dinamismo económico, como também acreditavam que o crescimento da China se devia ao seu enorme atraso. Não podiam ter imaginado que dentro de algumas décadas a China se tornaria a segunda maior economia do mundo, estando na iminência, nesta década, de se tornar a primeira.

Mas, acima de tudo, a crise e o declínio dos EUA não foi apenas económico. Os Estados Unidos sempre basearam a sua superioridade global na sua força militar. Este tem sido o caso desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando tiveram a experiência, que para eles permaneceu um exemplo, da derrota do Japão. Não poderia haver um país mais distante como cultura e como trajectória histórica. No entanto, com duas bombas atómicas, os Estados Unidos derrotaram o Japão e fizeram dele um aliado estratégico leal.

Com todas as diferenças que esta experiência teve em relação a outras posteriores – Vietname, Iraque, Afeganistão, entre outros – os EUA, com a sua reconhecida incapacidade de analisar cada experiência no seu contexto histórico, incorporaram definitivamente a estratégia de impor a superioridade militar como forma de resolução de conflitos.

A derrota no Vietname, um país com uma economia agrícola, presa teoricamente fácil para os EUA, foi simbólica. Foi uma derrota militar contra a estratégia de guerra de um povo, a vitória de um povo organizado, uma derrota política que evidenciou as fraquezas da estratégia dos EUA. Mas foram em frente, ou porque sentiram que era devido à situação comprometida que herdaram das derrotas japonesa e francesa, ou porque não analisaram em profundidade como 700.000 tropas e a colocação de minas em grande parte do território vietnamita poderiam ser vencidas.

A crise de 2008 marcou um ponto de viragem na economia internacional, apontando para o esgotamento definitivo do modelo neoliberal. Ao mesmo tempo, os EUA reproduziram a estratégia de impor a sua superioridade militar como uma forma de tentar resolver as crises em que estavam envolvidos. Este foi o caso no Iraque, Síria, Líbia e Afeganistão.

Assim, a crise económica foi agravada pela crise militar, a incapacidade dos EUA em resolver crises através da força dos seus militares. Esta fraqueza foi inevitavelmente projectada na sua força política baseada nas tropas, que também foi afectada. O fracasso no Afeganistão é mais um exemplo de como, após envolver os seus aliados europeus na aventura de invasão do país, projectou a erosão do fracasso sobre eles, enfraquecendo ainda mais a hegemonia política dos EUA, mesmo com os seus aliados europeus tradicionais. Uma sondagem mostra como os seus aliados, se sujeitos à alternativa de lealdade para com os EUA ou a China, prefeririam estes últimos.

A China não só tem vindo a reforçar a sua economia e relações comerciais em todo o mundo – da Ásia à América Latina e à Europa – como os seus investimentos em todas estas regiões têm vindo a consolidar a sua presença económica. Tanto que a indústria automóvel alemã se tornou directamente dependente da indústria chinesa, estabelecendo necessidades mútuas e trocas estreitas entre elas. Tecnologicamente, a China começa a competir com os Estados Unidos em áreas-chave para o futuro económico mundial, começando por todas as áreas de inteligência artificial e automatização.

A força americana no mundo sobrevive no estilo de vida americano, no que eles chamam o “American way of life”. Um modo de vida que já tinha sido exportado nas décadas de 1950 e 1960, com a presença de grandes empresas multinacionais americanas em todo o mundo, com os seus produtos como símbolo de progresso económico e bem-estar social, desde electrodomésticos a automóveis. Possuir estes bens tornou-se o sonho da classe média e de sectores cada vez mais amplos da sociedade.

A sofisticação tecnológica diversificou-se cada vez mais no arco dos produtos de consumo que acompanhavam o estilo de vida americano, exportados para a Europa, América Latina e mesmo Ásia. O estilo de vida americano tornou-se universalizado. O marketing foi responsável pela divulgação da associação destes produtos com sucesso na vida e bem-estar social.

Na própria China, os supermercados reproduzem as suas versões ocidentais, embora maiores e mais bonitas, exibindo os mesmos produtos aí produzidos pelas mesmas multinacionais americanas. Isto fecha o ciclo da globalização do estilo de vida americano.

A tentação de recusar globalmente o acesso ao consumo na Revolução Cultural e no Kampuchea foi derrotada. Apenas a alternativa da sociedade de consumo permaneceu.

Mesmo nos governos progressistas da América Latina não havia nenhuma forma diferente de sociabilidade. A exigência era a inclusão de todos no domínio do consumo, do qual foram excluídos. O acesso a produtos sofisticados, a restaurantes frequentes, a viagens, onde as compras eram uma parte essencial, significava o acesso ao consumo.

Não houve formulação de um tipo alternativo de sociabilidade, que incluísse o acesso a necessidades básicas mas sem a centralidade do consumo, marcas, modas de produtos, na busca frenética de acompanhar os últimos produtos lançados e promovidos pelo marketing. Um desafio pendente: a formulação de uma espécie de sociabilidade alternativa.

Esta é a única forma de tirar partido da crise da hegemonia americana para a derrotar também nas esferas ideológica, cultural e de vida. Depois será enfraquecida definitivamente.

(Publicado no Diario.es, 31 de Agosto de 2021)

Estados Unidos: Declínio económico progressivo?

#SaludMundial #Economia #CoronaVirus #Politica

Segundo o Los Angeles Times de terça-feira, o agravamento da crise sanitária nos Estados Unidos está a paralisar a economia norte-americana.

Isto envolve, entre outros “ferimentos”, companhias aéreas, restaurantes, hotéis, ofertas de emprego e os escritórios de grandes empresas.

Dados da Administração de Segurança dos Transportes indicam que houve uma diminuição de um milhão de viajantes nos últimos 30 dias.

Helane Becker, uma analista da Cowen Inc. disse que “houve um abrandamento nas reservas das companhias aéreas e um aumento nos cancelamentos”.

Relativamente aos restaurantes, Debby Soo, CEO da empresa OpenTable, disse que a principal causa da quebra é a preocupação dos comensais com o aumento dos casos de COVID.

Entre os seus 25 principais mercados hoteleiros, nenhum teve uma ocupação elevada durante o mês de Agosto em comparação com a mesma data em 2019.

As ofertas de emprego também sofreram declínios.

Um relatório da Kastle Systems sobre a ocupação em grandes empresas indicou que em 10 dos distritos comerciais caiu 31% em relação aos níveis pré-pandémicos.

Anthony Paolone, analista de investimentos imobiliários do JPMorgan Chase observou que “o regresso ao espaço de escritórios foi atrasado pela Delta”.

Assim, a erosão imposta pelo Covid-19 está a espalhar-se pelos Estados Unidos.

Tirada de CubaSí

A Globalização Neoliberal em Crise .

#EconomiaMundial #GlobalizacionNeoliberal #EstadosUnidos #China #ReinoUnido #Brexit

Por: Álvaro García Linera

Estamos a viver a articulação imprevista de quatro crises que se reforçam mutuamente: uma crise médica, uma crise económica, uma crise ambiental, e uma crise política. Uma situação de enorme perplexidade e angústia. A sociedade e o mundo parecem ter perdido o seu rumo, a sua direcção, o seu destino. Ninguém sabe o que vai acontecer a curto e médio prazo, nem ninguém pode garantir se vai haver um novo surto ou se vai surgir um novo vírus, se a crise económica se vai intensificar, se vamos sair dela, se vamos ter empregos ou poupanças. Isto leva a uma paralisia do horizonte preditivo, não só nos filósofos, o que é normal, mas nas pessoas comuns, nos cidadãos, nas pessoas que vão ao mercado, nos trabalhadores, operários, camponeses, pequenos comerciantes. O horizonte preditivo é a capacidade imaginada de nos propormos coisas a médio prazo, coisas que muitas vezes não acontecem, mas que guiam a nossa acção e o nosso comportamento. O horizonte preditivo decompôs-se, desintegrou-se. Ninguém sabe o que vai acontecer.

A suspensão do tempo
É neste sentido que proponho a categoria de “tempo suspenso”. Ainda que as coisas aconteçam, ainda que surjam conflitos, problemas, novidades, todos os dias vivemos uma suspensão do tempo. Há um movimento de tempo quando há um horizonte, quando podemos pelo menos imaginar para onde estamos a ir, para onde estamos a ir. É uma experiência muito dolorosa, uma nova experiência que estamos a viver, no sentido de que não há direcção a seguir, o que é angustiante.

A suspensão do tempo traz consigo um conjunto de sintomas e consequências. O primeiro destes é o que poderíamos chamar “um crepúsculo epocal”. O mundo assiste ao encerramento prolongado, conflituoso e agonizante da globalização neoliberal. Estamos num processo emergente de desglobalização económica que tem vindo a ganhar ritmo, mas que começou há cinco ou dez anos atrás em encaixes e arranques. A primeira vaga da globalização teve lugar no século XIX, até ao início do século XX, e a segunda no final do século XX, entre 1980 e 2010. Esta segunda onda de globalização entrou num processo de desestruturação parcial, um processo de desglobalização económica parcial. Há quatro factos que sustentam esta hipótese:

Em primeiro lugar, o comércio mundial teve uma taxa de crescimento, entre 1990 e 2012, duas a três vezes superior à taxa de crescimento do PIB mundial. De 2013 a 2020 é inferior ou, na melhor das hipóteses, igual à taxa de crescimento do PIB. O comércio, o carro-chefe dos mercados globalizados, diminuiu, de acordo com relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

O SEGUNDO FACTO É QUE OS FLUXOS DE CAPITAIS TRANSFRONTEIRIÇOS, QUE ENTRE 1989 E 2007 TINHAM CRESCIDO DE 5% PARA 20% DO PIB MUNDIAL, CAÍRAM PARA MENOS DE 5% ENTRE 2009 E HOJE.

O terceiro facto é a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o Brexit, que estabeleceu um limite para a expansão, pelo menos no lado ocidental, desta articulação do mercado, da economia e da política europeia. Por seu lado, os Estados Unidos, com a administração Trump, estão a iniciar um processo gradual de repatriação de capital sob o lema “América Primeiro”. Na sua administração, Trump lançou uma guerra comercial contra a China, mas também contra o Canadá e depois contra a Europa. Ele libertou velhos fantasmas de segurança nacional para tentar impedir a China de assumir a liderança global e controlar a rede 5G. Além disso, a COVID-19 acelerou os processos de reagrupamento das cadeias de valor essenciais, de modo a não repetir os processos que ocorreram na Europa quando, entre países supostamente pertencentes ao mesmo sindicato, lutaram na fronteira por causa de respiradores e material médico. Este controlo permite-lhes não depender de fornecimentos da China, Singapura, México ou Argentina, ou de qualquer outro país. Assim, temos um cenário paradoxal com a China e a Alemanha aliados do comércio livre e os Estados Unidos e a Grã-Bretanha aliados de uma visão proteccionista da economia e do mundo. Nos anos 80, estes dois últimos países lideraram a onda de globalização com Ronald Reagan e Margaret Thatcher, e agora são os seus líderes que lideram uma visão proteccionista e os comunistas, liderados pela China, que apelam a todo o mundo para que abra fronteiras e não impeça a globalização de parar.

Uma última informação sobre esta desglobalização parcial que estamos a viver é o documento que acaba de ser publicado pelo Fundo Monetário Internacional. Há um monitor fiscal e um relatório sobre a economia mundial que apresenta um conjunto de recomendações que são surpreendentes, paradoxais e até engraçadas vindas do FMI: “os prazos da dívida pública devem ser alargados”. Por outras palavras, propõem que os países não paguem a sua dívida pública, que prolonguem e estabeleçam mecanismos de reembolso para os anos seguintes. Não esquecer que foram o FMI, juntamente com Merkel e Deutsche Bank, que se impuseram à Itália, depois à Irlanda e finalmente à Grécia, para os forçar a assumir os seus compromissos de dívida. O relatório sugere “aumentar os impostos progressivos sobre os mais ricos”, não é o programa de um partido de esquerda radical, é a recomendação do FMI. Também propõe impostos “sobre as propriedades mais caras, sobre as mais-valias, e sobre a riqueza”, o que é ainda mais radical do que algumas das propostas que têm sido apresentadas por grupos de esquerda no continente. Continua para “modificar a tributação das empresas para garantir o pagamento de impostos”. Por outras palavras, ele apela a ser mais arrojado e a modificar o sistema fiscal porque há muitas pessoas ricas que fugiram aos impostos. Encerra com uma sugestão de tributação internacional da economia digital, apoio prolongado ao rendimento dos trabalhadores deslocados e aumento do investimento público. Este é um programa de reforma que há um ano era impensável, era uma heresia vinda destes organismos internacionais que funcionam como cérebros do capitalismo global.

Isto está a marcar uma mudança no zeitgeist. Alguma coisa está a mudar. Foi-se o livro de receitas da austeridade fiscal, a ameaça de que afugentar os ricos através da sua tributação nos fará perder riqueza e empregos. Há uma modificação dos parâmetros epistemológicos com que este sector do capital global estava a olhar para o que está para vir em termos desta articulação da crise ambiental, médica, económica e social. Evidentemente, há um medo de classes perigosas e explosões sociais que está a levar a uma mudança de 180º nas posições de política económica promovidas por estes ideólogos do capitalismo global, e que tinham comandado todo o neoliberalismo desde os anos 80 até 2020, em termos de redução do Estado, investimento público, impostos sobre os ricos e apoio social aos trabalhadores. Não sabemos se será temporário, mas trata-se de uma mudança substancial.

A erosão da hegemonia neoliberal conservadora
Um segundo efeito deste tempo suspenso é o que podemos qualificar como um estupor e cansaço da hegemonia neoliberal conservadora implementada nos últimos 40 anos. Não é que tenha acabado, pode durar um bom tempo mais, mas perdeu a sua capacidade de regeneração, de irradiar impulso e de articular esperanças. O neoliberalismo é mantido pela inércia, pela força da herança passada. Podemos ver isto na crise dos instrumentos que tinham sido fetichizados para organizar o futuro.

O neoliberalismo utilizou três instrumentos para criar uma narrativa, um imaginário, falso de facto, mas acreditado por muitas pessoas sobre quem organizou o futuro: o mercado, a globalização e a ciência. O mercado globalizado demonstrou que não é um tema coeso. Face à crise do vírus e à propagação de contágios, nenhum mercado fez nada. Pelo contrário, os mercados escondiam as suas cabeças como avestruzes e o que emergiu como única e última instância de protecção social foram os Estados. A globalização, enquanto ideologia de modernização, melhoria da vida e expansão ilimitada de oportunidades, já não tem a capacidade de conter o descontentamento, organizar os medrosos e acalmar as preocupações dos ansiosos. A ciência, que foi imaginada e deturpada como tendo poder ilimitado e capacidade infinita para transformar e resolver os problemas da humanidade, está agora a mostrar os seus limites. Há coisas que nós humanos não podemos resolver, confrontar ou superar, o resultado das nossas próprias acções. A ciência também tem um horizonte epocal; pode resolver muitas coisas e não outras. É preciso muito tempo, esforço, recursos e mudança de comportamento para que a ciência seja capaz de enfrentar e resolver os problemas que estamos a causar, especialmente devido à forma como temos rompido metabolicamente, orgânica e racionalmente a nossa relação com a natureza.

Tudo isto significa que a hegemonia neoliberal perdeu o seu optimismo histórico. Já não se apresenta ao mundo como portador de certezas imaginadas, horizontes plausíveis, conquistáveis e realizáveis a médio prazo. As certezas imaginadas do futuro foram estilhaçadas e este é agora o novo senso comum. Ninguém pode agora dizer qual é o destino da humanidade. A humanidade nunca tem um destino, é sempre uma incerteza, mas o que as grandes hegemonias fazem é criar um destino imaginário para a humanidade. As ideologias e hegemonias têm uma faculdade performativa: a capacidade de criar aquilo que enunciam. É esta capacidade que a hegemonia neoliberal planetária perdeu porque já não tem força para suscitar entusiasmo, para criar aderência duradoura, ou para propor um horizonte viável no tempo. É um momento de fadiga e estupor hegemónico, um momento que permite uma nova materialidade de hegemonia, que se torna porosa. Já não se apresenta como um fluxo imbatível que vai para um lado, mas como águas estagnadas, onde outros tipos de substâncias, outros tipos de elementos se infiltram. Por conseguinte, estas águas estagnadas de hegemonia conservadora falam da paralisia do horizonte preditivo. Repito: não é o fim nem do neoliberalismo económico nem da hegemonia neoliberal. É um momento de fadiga, esgotamento e enfraquecimento que pode arrastar-se durante anos, com cada vez mais dificuldades, com menos irradiação, com menos entusiasmo, com menos capacidade de gerar aderência duradoura e legitimidade activa.

Discriminação do consenso político e económico neoliberal
A terceira característica deste declínio é a quebra do consenso político e económico neoliberal. Desde a década de 1980, a hegemonia neoliberal foi capaz de se desenvolver nas esferas económica e discursiva porque fundiu duas coisas: economia de mercado livre e democracia representativa. Isto deu-lhe uma grande força. Houve um feedback entre o horizonte económico que procurou encolher o Estado, entregar bens públicos a actores privados, regular e fragmentar a força de trabalho, reduzir salários e direitos, com um sistema de democracia representativa. Após a queda do Muro de Berlim e o comunismo como alternativa à sociedade capitalista, todas as elites, quer à esquerda quer à direita, tinham optado pelo neoliberalismo, com um sentido um pouco mais social ou mais empresarial, porque partilhavam o mesmo horizonte sobre o destino da humanidade.

Após 40 anos, este núcleo de economia de mercado livre e democracia representativa começa a deslocar-se e a dissociar-se, à medida que emerge um neoliberalismo cada vez mais enraivecido. Esta é uma das características da época. Todos os anos vamos repensar a proposta neoliberal, cada vez mais enfurecida, autoritária, racista, xenófoba, antiliberal, anti-feminista, cada vez mais vingativa, cada vez mais fascista. Foi isto que aconteceu na América Latina e noutras regiões do mundo. O caso do golpe na Bolívia, a situação no Brasil, nos Estados Unidos, na Polónia e em muitos outros países. Existe um neoliberalismo cada vez mais autoritário, como forma de se entrincheirar, quando as suas forças e a sua capacidade de atracção estão a enfraquecer.

Além disso, pela primeira vez, a democracia começa a apresentar-se como um entrave às perspectivas neoliberais. O optimismo dos anos 80 foi perdido e as bandeiras democráticas são agora vistas com desconfiança porque existe uma divergência entre as elites. Ou seja, por um lado, há elites que defendem a continuação do neoliberalismo: enriquecer os ricos, virar os pobres de cabeça para baixo, continuar a privatizar e manter a austeridade fiscal; e, por outro lado, há elites e blocos sociais dispostos a implementar outras políticas mais híbridas: preocupar-se com os pobres, repensar as questões da propriedade, fiscalidade, dar poder aos comuns, entre outras questões. Esta divergência e a falta de um horizonte comum de expectativas preocupa as elites neoliberais, que começam a ver a própria democracia e os processos eleitorais com desconfiança, suspeição e distância.

Tendências da suspensão do tempo no futuro imediato
Neste tempo suspenso e ruptura do horizonte preditivo podemos identificar quatro tendências para o futuro imediato.

O primeiro está a ter lugar no debate nos grandes grupos de reflexão do capitalismo mundial: a revitalização do Estado como tema principal. Isto está a acontecer de duas maneiras. A primeira é a revitalização da utilização de recursos públicos para mitigar perdas ou expandir os lucros das empresas. Esta é a velha modalidade neoliberal que procura encolher o Estado, mas alargar a sua riqueza com bens comuns que estão sob controlo ou propriedade do Estado. Actualmente, o dinheiro público está a ser utilizado para comprar acções em grandes empresas cuja produção ou comercialização tem sido afectada pelo confinamento dos últimos meses.

De acordo com um relatório do Fundo Monetário Internacional, em Outubro de 2020, as economias avançadas tinham utilizado capital estatal equivalente a 11% do seu PIB em empréstimos e garantias, e 9% em despesas adicionais. Por outras palavras, economias avançadas como os Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca, Japão ou Canadá utilizaram entre 15% e 20% do seu PIB para comprar acções de empresas, nacionalizar as perdas empresariais, conceder crédito aos bancos ou amortecer as reduções de lucros empresariais. Isto é uma revitalização do Estado, mas em termos de monopólios privados.

Outra forma de revitalização que também luta para emergir é a do Estado na sua dimensão comunitária, procurando protecção social, melhorando os salários, expandindo os direitos, aumentando o investimento público, protegendo os mais fracos, investindo na saúde e educação, criando empregos, ou nacionalizando empresas privadas para gerar recursos públicos para a população.

Cada estado tem estas duas dimensões. Como Marx salienta, “o Estado é uma comunidade ilusória”, que tem a dimensão de bens comuns (riqueza é um bem comum, impostos são um bem comum, identidades são bens comuns), mas são bens comuns de administração monopolista. O que as forças conservadoras estão a fazer é utilizar os bens comuns para benefício privado, através do reforço do monopólio do Estado; enquanto as forças sociais progressistas estão a lutar pela expansão do Estado como uma comunidade com bens a serem distribuídos e utilizados pela maioria da população. De que forma o Estado se inclina dependerá das lutas sociais, da capacidade de mobilização, da governação através do parlamento e nas ruas, da acção colectiva, e assim por diante.

Uma segunda tendência do momento presente é a utilização do excedente económico de cada sociedade. Nos próximos meses e anos, as lutas sociais, políticas e ideológicas irão aumentar entre diferentes partidos, conglomerados, grupos de pressão, classes e movimentos sociais para determinar quem irá beneficiar dos escassos recursos públicos. Com necessidades muito grandes e bens escassos, será que o sector empresarial, o trabalhador, o camponês, o trabalhador, a classe média, a burocracia, os proprietários de terras, os proprietários de terras ou os banqueiros beneficiarão? Os Estados estão a endividar-se uma ou duas gerações à frente e estão a emitir mais dinheiro para que haja circulação e movimento económico. Isto dá origem a duas disputas: sobre a utilização deste dinheiro e sobre quem vai pagar por ele.

A terceira tendência é o que podemos definir como a abertura cognitiva da sociedade. À medida que as velhas certezas se tornam mais rudimentares e rudimentares, e que o horizonte preditivo da sociedade neoliberal se estreita, as pessoas começam a abrir a sua capacidade e vontade de receber novas ideias, crenças e certezas. Os seres humanos não podem permanecer indefinidamente sem horizontes preditivos mais ou menos estáveis, a médio prazo. É uma necessidade humana porque precisamos de “aterrar”, precisamos de ancorar a projecção das nossas vidas, acções, trabalho, esforços, poupanças, apostas académicas e amorosas num tempo mais ou menos previsível. Quando isto não acontece, procuramo-lo onde pudermos. Esta é a base para a emergência de propostas muito conservadoras e quase fascistas, que é o que está a acontecer em alguns países do mundo. Na Bolívia, os derrotados das eleições foram rezar lá, foram ajoelhar-se em frente ao quartel para pedir aos militares que assumissem o governo. A saída ultraconservadora e fascista reuniu todas as pessoas envolvidas no golpe de estado: Añez, Carlos Meza, Tuto Quiroga, a Organização dos Estados Americanos, OEA. Isto é algo que nunca tinha acontecido antes no continente, nem mesmo nos anos 70, no continente. Agora vemos estas imagens patéticas do abandono da racionalidade política para apelar a este tipo de saída.

A quarta tendência são os gigantescos desafios para as forças progressistas e esquerdistas do planeta para enfrentar a gravidade deste horizonte preditivo quebrado e diluído. Mencionarei simplesmente as seis questões que qualquer proposta deve abordar ao assumir a batalha pelo senso comum e pelo horizonte preditivo da sociedade nos próximos meses e anos:

  1. A democratização política e económica, e as suas diferentes variantes. Isto é o que alguns chamam a possibilidade do socialismo democrático.
  2. A luta contra a exploração, incluindo não só a distribuição da riqueza, mas também a democratização das formas de concentração da grande propriedade.
  3. A desracialização e descolonização das relações sociais e dos laços entre os povos e entre indivíduos dentro das organizações.
  4. Os processos de despatriarcalização e de recuperação da soberania das mulheres sobre a gestão dos seus corpos e das suas relações.
  5. Um ambientalismo social que não olha para a natureza como um parque, mas vê a natureza na sua relação com a sociedade. Requer uma abordagem que restabeleça o metabolismo racional entre o homem e a natureza, tendo em conta a satisfação das necessidades básicas das pessoas mais pobres, dos pobres e dos trabalhadores.
  6. Um internacionalismo renovado. Os desafios que a esquerda e as forças progressistas enfrentam nos próximos anos residirão na sua capacidade de promover propostas cada vez mais radicais de democratização política e económica.

Creio que estamos certamente a enfrentar tempos sociais muito chocantes. Paradoxalmente, apesar de estarmos a falar de um tempo paralisado, uma série de lutas, convulsões e instabilidades permanentes estão a desenvolver-se local e tacticamente que indicam que as vitórias do lado conservador e as vitórias do lado progressista ou da esquerda também não vão durar. É uma época em que nada durará muito tempo. Cada vitória das forças conservadoras será de pés curtos e poderá entrar em colapso, e cada vitória das forças esquerdistas poderá ser de pés curtos se não souber corrigir erros e promover um conjunto de ligações com a sociedade.

Este é o conjunto de ideias que gostaria de partilhar convosco sobre o nosso tempo presente.

(Extraído da Página 12)

ESTE TEXTO É UMA ADAPTAÇÃO DA PALESTRA QUE ÁLVARO GARCÍA LINERA DEU NO CURSO “ESTADO, POLÍTICA E DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA”, ONDE FOI APRESENTADO POR VICTOR SANTA MARÍA. A PALESTRA COMPLETA PODE SER ENCONTRADA EM:

O CURSO INTERNACIONAL “ESTADO, POLÍTICA E DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA” É UMA INICIATIVA DIRIGIDA A ACTIVISTAS E ACTIVISTAS SOCIAIS, FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS, PROFESSORES, ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS, INVESTIGADORES, SINDICALISTAS, LÍDERES DE ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS E NÃO GOVERNAMENTAIS, TRABALHADORES DA IMPRENSA E QUALQUER PESSOA INTERESSADA NOS DESAFIOS DA DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA E NAS CARAÍBAS. FOI PROMOVIDO PELO GRUPO PUEBLA, O OBSERVATÓRIO LATINO-AMERICANO DA NOVA UNIVERSIDADE ESCOLAR, O PROGRAMA LATINO-AMERICANO DE EXTENSÃO E CULTURA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E UMET. FOI ORGANIZADO PELA ESCOLA DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS E GLOBAIS, ELAG, E FOI APOIADO PELA PÁGINA12.

Extraído de Granma